segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Crônicas da Matrix Financeira: Luísa, a musa do protelariado

Era o longínquo ano de 2005 quando Luísa chegou aos 18 anos de idade sem a menor dúvida do que queria para a vida: cursar ciências sociais.

Depois de enfrentar uma dificílima concorrência de três candidatos/vaga, Luísa obteve sua aprovação no vestibular e garantiu sua vaga na universidade federal. 

Seguindo a tradição de 12 anos atrás, Luísa comunicou sua aprovação a todos os seus amigos e amigas no Orkut, e depois entrou na comunidade mais marrenta das redes sociais brasileiras daquela época: 


No primeiro semestre letivo, a certeza de que Luísa estava no lugar certo só aumentou. 

Professores ministravam aulas sobre a contribuição de Carl Grünberg para o marxismo; o Centro Acadêmico promovia acalorados debates sobre a socialização dos meios de produção; as festinhas no campus eram cheias de gente descolada e de todas as tribos.

Finalmente Luísa encontrou seu habitat natural, sentindo-se parte de um seleto grupo de pessoas que não aceitam ser escravas do sistema capitalista e que sabem que a salvação do Brasil consiste em conscientizar as massas acerca da luta de classes.

Luísa mergulhou de cabeça na militância. Filiou-se ao PSTU; fez parte do Centro Acadêmico; visitou o assentamento do MST que tinha no interior do estado; arranjou um namorado com cabelo dreadlock e que fazia discursos inflamados; foi no Fórum Social Mundial em Porto Alegre e participou de toda e qualquer reunião, debate e protesto, embelezando o ambiente por onde passava.

No sofá tão vermelho quanto o sangue revolucionário dos bolcheviques
O problema é que o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus e gastar sua juventude sonhando com a revolução do proletariado não é lá uma boa forma de garantir estabilidade financeira no futuro.

A graduação acabou, os dias de universidade federal ficaram para trás, a vida adulta chegou e a necessidade de pagar as próprias contas veio como um tapa na cara:


Quando você é um recém-formado em ciências sociais, tem basicamente três caminhos a seguir: 

1) Arranjar um trabalho não relacionado às ciências sociais.
2) Fazer um mestrado e ganhar bolsa tipo Capes ou Faperj. 
3) Dar aula de sociologia em instituições de ensino públicas e particulares.

Luísa optou pela terceira opção, e conseguiu um contrato temporário (sem concurso) para dar aula em escolas públicas estaduais, passando assim a ensinar sociologia para a molecada que estava mais interessada em aprender a coreografia da Gaiola das Popozudas do que em prestar atenção na matéria.

Tchu tchá tchu tchá
Se você acha o seu trabalho ruim, imagine-se tendo que dar aula para crianças desinteressadas em uma escola sucateada na beira de uma favela, e depois ter que ir voando pra chegar a tempo em outra escola do outro lado da cidade, tendo esse deslocamento todo só porque a administração pública não consegue fazer algo tão simples quanto organizar os professores de forma que eles consigam trabalhar em escolas próximas uma das outras.

Assim foi a rotina de Luísa por quatro anos, não podendo mais continuar como contratada temporária do Estado pois o prazo de contrato havia chegado ao limite.

Desanimada com a carreira, Luísa optou por arranjar um trabalho não relacionado às ciências sociais. Com a ajuda do pai, conseguiu arranjar um emprego reconhecendo firmas em um cartório de títulos e documentos.

4 anos de estudo pra isso. O que será que houve com o "Ih, foi mal, a minha é federal?"
Ninguém pensa "quando crescer quero ser auxiliar de cartório e ganhar R$ 1.200,00/mês", então Luísa não estava necessariamente feliz com o rumo de sua vida profissional. Até mesmo seu ex-namorado cabelo dreadlock dos tempos de universidade estava ganhando mais que ela, e olha que o cara trabalha de garçom em um restaurante mexicano.

Se você acha que essa história caminha para um final triste, provavelmente se esqueceu que no Brasil moças bonitas como Luísa só se dão mal financeiramente se quiserem.

Aproximando-se dos 30 anos de idade, Luísa parou de dar moral pra mendigo formado em curso de hipster e passou a se preocupar mais com a estabilidade financeira dos seus pretendentes.

Ela não tardou a iniciar um relacionamento com um cara que nos tempos de universidade era conhecido pelo apelido Peitinhos, em razão de uma ginecomastia tão protuberante que nem camisas pretas escondiam suas tetinhas masculinas.

Peitinhos fez um curso de exatas e hoje é servidor público federal, ganhando em média R$ 14 mil/mês, segundo o Portal da Transparência.

O que me motivou a escrever o post de hoje foi justamente o fato de que neste feriadão andei olhando as redes sociais e vi fotos do luxuoso casamento dos dois: Peitinhos com aquela cara de "venci na vida, casei com uma mulher bonita", e Luísa com cara de princesa da Disney, certamente sentindo um enorme alívio por ter conquistado a estabilidade financeira que seus anos de esquerdismo não puderam lhe proporcionar.

Parabéns aos pombinhos (foto aleatória tirada do Google Imagens)
O ex-namorado de Luísa, por sua vez, continua trabalhando como garçom no restaurante mexicano, provavelmente ganhando uns 1.500 funaros por mês, vivendo em uma república com mais três caras e sem a carta-coringa do casamento-com-beta-rico para melhorar a condição de vida.

Pelo amor de Zapata, me dá uma gorjeta boa aí, brother.
A lição do post de hoje é: se você quiser brincar de viva la revolución enquanto deveria estar estudando, ao menos tenha certeza que você terá uma válvula de escape quando chegar na vida adulta, tal qual beleza o suficiente para arranjar um cônjuge que te sustente, ou pelo menos um pai disposto a te bancar enquanto você envelhece.

Aquele abraço!

PS: seguindo as dicas de segurança dadas por um simpático Anôn, não mencionei no post qual é o meu vínculo com Luísa. O que posso dizer é que a conheço há bastante tempo.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A era dos especialistas em nada

Há não muito tempo atrás, Márcio (nome fictício por motivos óbvios) adentrou no mundo do empreendedorismo e abriu uma tapiocaria super descolada num bairro boêmio da cidade, com direito a um ambiente retrô e uma jukebox tocando músicas de época.

Tapiocaria retrô (foto meramente ilustrativa tirada do Google Imagens)
Para ter uma estreia avassaladora, Márcio resolveu que a inauguração de sua tapiocaria seria fechada ao público.

Foram convidados apenas amigos próximos, familiares, colunistas sociais, jornalistas, blogueiras de moda, instagramers do mundo fitness (aquelas mulheres que postam foto malhando e são seguidas por milhares de pessoas), além de um ator do quinto escalão da Globo que recebe cachê para comparecer em eventos aleatórios.

Os colunistas sociais retribuíram o convite divulgando a tapiocaria "ma-ra-vi-lho-sa" nos jornais, as blogueiras do mundo fashion tiraram várias selfies no local, as instagramers fitness postaram fotos de tapioca com rúcula e tomate seco para seus milhares de seguidores admirarem, e o ator global sorriu para as fotos, embolsou seu cachê e foi embora pra nunca mais voltar.

Beba champanhe e coma canapés na exclusiva inauguração dessa elegante tapiocaria
A estratégia de marketing na inauguração deu certo. A tapiocaria passou a ficar sempre cheia, e Márcio passou a se auto-promover como empreendedor de sucesso, um jovem prodígio, um verdadeiro Jorge Paulo Lemann das tapiocas.

Com bastante culto à própria personalidade e uma ajudinha da imprensa que faz reportagem sobre qualquer bosta, Márcio logo foi alçado à posição de jovem prodígio da iniciativa privada, passando a aparecer em matérias sobre pessoas com menos de 30 anos que têm negócios de sucesso, bem como ganhando prêmios de "jovem revelação" dentro dos órgãos de classe e associações empresariais.

Em seus perfis nas redes sociais, Márcio fez jus ao seu status de "expert em empreendedorismo" e passou a ensinar aos reles mortais sobre o poder do pensamento positivo, sobre como você deve acreditar nos seus sonhos, como empreender para mudar o mundo vendendo tapioca, sair da zona de conforto, enfim, todo aquele papo chato pra cacete que todos nós já conhecemos muito bem.

Além de administrar a tapiocaria, Márcio começou a flertar com o empreendedorismo de palco
Enquanto se tornava uma subcelebridade local e espalhava a palavra do empreendedorismo com o mesmo furor que um jesuíta catequizava índios no Brasil colonial, Márcio não atentou ao fato de que sua tapiocaria estava perdendo movimento.

Não sei se em outras regiões do país é diferente, mas em regra uma tapiocaria é o tipo de lugar que você vai uma vez, pensa "ok, legal" e nunca mais volta. Foi assim que me senti quando visitei a tapiocaria do Márcio, e é assim que a absoluta maioria das pessoas provavelmente se sentiu também.

Foi só o estabelecimento do Márcio deixar de ser "a novidade do momento" que o faturamento começou a cair. Com a queda no faturamento veio a dificuldade de pagar empregados e os fornecedores, que por sua vez se negavam a continuar fornecendo os insumos até a quitação dos débitos.

Quando você tem um restaurante e fica sem crédito com os fornecedores do Ceasa, só lhe resta comprar ingredientes mais caros e menos frescos em supermercados, o que diminui ainda mais a sua margem de lucro e a qualidade das suas refeições.



Com a crescente queda no faturamento, não demorou muito tempo até Márcio não ter mais dinheiro para pagar o aluguel do lugar onde funcionava a tapiocaria, e o calote que ele deu no locador do imóvel resultou num processo de despejo e de cobrança de alugueis atrasados.

Sentindo-se encurralado por dívidas vindas de todos os lados, o jovem empreendedor de sucesso dispensou todos os funcionários, fechou as portas da tapiocaria, tornou privado seus perfis pessoais, deletou os perfis da empresa nas redes sociais e "desapareceu".

Não sei. Ninguém sabe.
Mais e mais processos judiciais pipocavam contra Márcio e sua falida tapiocaria, dentre eles ações trabalhistas ajuizadas pelos ex-empregados.

Todos os ex-empregados alegam que nunca tiveram a carteira de trabalho assinada, que não recebiam nenhuma verba trabalhista (FGTS, horas extras etc) e que recorrentemente sofriam assédio moral.

Só pra vocês terem uma ideia do alto nível de profissionalismo desse premiado empreendedor, esse é o teor de um processo de uma ex-empregada da tapiocaria que recebi pelo WhatsApp:

O mundo dá voltas, não é mesmo? Num momento o sujeito está lá falando sobre acreditar nos seus sonhos como receita garantida para o sucesso, e em questão de meses está afundado em dívidas, fugindo de credores e respondendo a todo tipo de processo, inclusive inquérito pelo crime de apalpar peitinho alheio.

Mas enfim, eu contei a aventura empresarial do Márcio pra dizer que, depois de alguns meses sumido, ele finalmente retomou com as aparições públicas, especialmente nas redes sociais.

Só que agora ele não se apresenta mais como o jovem enterpreneur de sucesso, e sim como...

Life Coach
Business Coach

Isso mesmo, Márcio agora é coach.

O camarada cujo histórico consiste em molestar garçonete, falir tapiocaria e fugir de dívidas agora está aí, pronto para te dizer como você deve viver sua vida e administrar seus negócios.

Todos os dias Márcio fala para seus seguidores sobre programação neurolinguística, como vencer desafios, aumentar produtividade, maximizar resultados de sua empresa e o caralho a quatro.

Márcio ajudando os outros com sua vasta experiência
São 13 milhões de desempregados no Brasil, dentre eles milhões de desesperados que procuram, procuram e não encontram nenhuma colocação no mercado de trabalho.

Esse cenário foi terreno fértil para proliferação dos coaches, cuja ampla maioria consiste em pessoas carismáticas que misturam autoajuda com conhecimento pseudocientífico para supostamente revolucionar a vida das pessoas que pagam por seus serviços.

Obviamente o coach te cobra uma boa quantia em dinheiro para te ajudar a "mudar para a melhor", e  é claro que se no fim das contas você não sentir nenhum resultado, é porque você não se esforçou o suficiente.

Como hoje em dia um vídeo no YouTube vale mais do que mil palavras, eu recomendo fortemente que vocês assistam os vídeos abaixo. Aviso de antemão que, apesar de serem vídeos bem curtos, são tão constrangedores que beiram o obsceno:



A absoluta falta de regulamentação sobre essa "profissão" faz com que qualquer ser humano possa se autointitular "coach".

Aliás, você pode ir mais além e se autointitular master coach, que é o que alguns já fazem para se apresentar como uma versão evoluída em relação aos coaches comuns.

Digo mais: você pode criar o Instituto Interamericano de Coaching e vender por R$ 4 mil um cursinho online de 12 horas-aula, em que quem assistir até o final receberá o certificado de Supreme Mega Coach, ou seja, quem comprar seu curso será muito mais fodão que um mero master coach.

Como vocês podem ver, o céu é o limite para a putaria quando uma profissão não tem regulamentação alguma.

Esse desconhecido fez um curso para Leader Coaching em alguma instituição que ninguém nunca ouviu falar e agora está pronto para te dar aulas de liderança
Antes de dar ouvido àquele sujeito simpático que diz que pra você conquistar o mundo basta acreditar nos seus sonhos, peço que se lembrem que o cara que está tentando te dar lições de vida pode ser um vendedor de tapioca falido que não tem autoridade alguma para te aconselhar no que quer que seja.

E o pior de tudo é que Márcio sequer é o único coach de credibilidade duvidosa que eu conheço. Conheço também uma menina que durante muito tempo trabalhava com venda de pulseiras Power Balance no mercado livre (quem se lembra desse troço?), depois casou e virou dona de casa, e agora divorciou e virou coach de emagrecimento.

E vocês, amigos? Conhecem algum coach? Já tiveram experiência com isso? Se você é coach e ficou chateado com o post de hoje, arranja uma profissão de verdade antes de dar faniquito nos comentários.

Aquele abraço!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Não estou morto

Passei um tempo ausente e alguns anôns desprovidos de bons costumes se aproveitaram disso para espalhar boatos sobre minha morte, e a área de comentários do post passado se tornou um misto de gente analisando a veracidade dos boatos, gente preocupada e gente desejando que eu descanse em paz.

Não morri, apenas fiz uma pausa.

Em determinado momento me senti desinteressado em me envolver com blog, então achei que uma pequena pausa de algumas semanas seria pertinente. Nunca fui muito fã de ficar na frente do computador, então "sumir" pra mim é muito fácil.

Hoje me dei conta de que a "pequena pausa de algumas semanas" estava se transformando em três meses de completo sumiço, então desenterrei meu notebook que estava esquecido no fundo de uma gaveta e resolvi retomar os trabalhos bloguísticos.

Vou preparar um post para a próxima quinta-feira e tentar voltar a postar regularmente.

No post de hoje desativarei os comentários pois o único objetivo foi pôr fim aos boatos mórbitos que estavam rolando no post passado.

Abraço e até quinta!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na barbearia gourmetizada

Moro relativamente perto de uma universidade e todo começo de semestre acontece a mesma coisa: calouros recém-aprovados no vestibular tomam as ruas pedindo grana nos sinais e vendendo rifas, tudo com o intuito de juntar dinheiro e promover festas.

Festinhas universitárias regadas a muita paquera e azaração
No começo do mês passado estava andando rumo ao trabalho e fui cercado por cinco calouras. Elas queriam me vender rifas e usar meu suado dinheiro para financiar suas festinhas espúrias em que alguém sempre termina hospitalizado pra tomar glicose para não entrar em coma alcoólico.

Ostentei meu poderio econômico ao pagar dois reais em uma rifa e as jovens saíram do meu caminho.

Cheguei no trabalho, parei para prestar atenção na rifa e vi que eu estava concorrendo a cinco prêmios diferentes, sendo o melhor deles uma bicicleta, e o pior deles um voucher para fazer cabelo e barba de graça numa barbearia "gourmetizada".

Enfiei a rifa nas profundezas de uma gaveta e esqueci desse assunto, até que no fim do mês passado recebi uma ligação de um estranho que me deu a boa notícia: o número da minha rifa foi sorteado e eu ganhei o tal voucher da barbearia.

Essa é a maior sorte que tive em um sorteio desde que ganhei um CD do É o Tchan no Havaí em 1998, então fiquei levemente satisfeito por ter sido contemplado, mesmo que com o pior dos prêmios disponíveis.

Em 1998 ganhei esse CD. Em 2017 ganhei corte de cabelo e barba. A sorte está crescendo exponencialmente e em 2036 ganharei R$ 50,00 na raspadinha da lotérica.
Pra fazer bom uso do voucher, deixei o cabelo e barba crescerem o máximo que pude, pra chegar na barbearia com aparência do Tom Hanks naquele filme "O Náufrago".

Como eu queria chegar na barbearia
Essa é uma daquelas barbearias "gourmetizadas" que toda cidade grande tem, criadas para serem "espaços exclusivos para homens", um espaço masculino onde você pode beber cerveja artesanal ao som de blues enquanto folheia uma playboy, tudo meticulosamente planejado pra fazer o cliente se sentir especial.

É um lugar muito diferente da barbearia que eu frequento, que é um muquifo onde o dono cobra tão barato pelo corte de cabelo que ele precisa dirigir Uber na madrugada para conseguir equilibrar as contas.

E lá fui eu, pela primeira vez, rumo à barbearia gourmetizada
Cheguei lá e fui recepcionado por um cara de suspensórios e barba de lenhador, um típico hipster que expressa sua individualidade se vestindo igual a todos os outros hipsters.

Falei que ganhei um voucher na rifa e os demais hipsters que trabalhavam no recinto vieram me cumprimentar com um falso entusiasmo de doer o coração.

"Primeira vez aqui, bróder?", "Quer uma gelada?", "Senta aí, bróder, a gente já vai te atender! Quer a senha do Wifi?".

Sentei num sofá e, na falta de coisa melhor pra fazer, fiquei observando o ambiente.



A primeira coisa que me chamou a atenção, além do ambiente vintage, foi uma placa com o preço dos serviços. Corte de cabelo com tesoura + barba totalizavam R$ 100,00. Isso mesmo, amigos, 100 joesleys para cortar cabelo e barba. Ainda bem que eu tinha o voucher.

Depois disso prestei atenção na conversa entre os clientes e os hipsters que cortavam seus cabelos: "Corolla é melhor que Civic", "o segredo da boa cerveja artesanal está na acidez do lúpulo", "eu trabalho numa plataforma e chefio uma equipe de 80 homens". Só papo de homem de sucesso. 

Chegou minha vez de ser atendido e o mesmo hipster que me recepcionou passou a cortar meu cabelo.

"Curtiu o espaço, bróder?"

"Sim, legal, só o preço assustou um pouco".

"Bróder, sobre o preço... aqui tem todo um conceito, você trabalhou o dia todo, quer um lugar pra relaxar, você chega aqui, senta no sofá, toma uma gelada, ouve uma música, recebe um tratamento especial, joga conversa fora, é toda uma experiência, não é um salão comum igual esses que tem por aí, aqui tem esse lance da experiência".

A tal da experiência que supostamente justifica o preço dos salões gourmetizados para homens

Concordei com o cabeleireiro hipster em nome da diplomacia, afinal estava ganhando corte de cabelo e barba de graça, então achei mais sensato usufruir do serviço sem ficar contrariando o camarada.

Cabelo cortado e barba feita, me preparei para ir embora e o hipster perguntou se eu ia voltar no mês que vem para cortar de novo. Eu respondi que ia voltar assim que ganhasse outro voucher, ele riu achando que era piada, eu me despedi e fui embora.

Adeus para sempre, barbearia gourmetizada
Fui andando pra casa pensando nesse lance da experiência.

Toda cidade grande já tem as suas barbearias gourmetizadas para homens, o que é um forte indício de que muita gente quer sim viver a tal da experiência que esses locais oferecem.

Paga-se o dobro, talvez o triplo do preço, pra sentar num sofá estilizado em um ambiente vintage, comprar uma cerveja a preço extorsivo e ficar lá se sentindo mais másculo enquanto relaxa com os miguxos do clube do bolinha.

Gourmetizaram a barbearia para atender à demanda de homens que precisam se sentir especiais até mesmo na hora de cortar o cabelo.

Amigo, é só cabelo! Você chega, corta, paga e vai embora. Que carência é essa que a galera está sentindo pra pagar mais caro pra transformar algo tão simples numa "experiência masculina"?

Isso me parece apenas mais uma armadilha pra pegar dinheiro de trouxa. Algo não muito diferente de pipoca gourmet, Uber Select e outras coisas inventadas para fazer a rapaziada gastar uma grana a mais em algo que eles atingiriam o mesmo resultado final se tivessem pago mais barato, tudo isso só pra se sentir diferenciado, especial, nobre, refinado ou qualquer outro sentimento que eu não sei explicar qual é.

Aquele abraço! 
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