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quinta-feira, 9 de abril de 2020

Minha incrível jornada de estagnação financeira

Olá, meus caros, no post de hoje contarei para vocês o que fiz nesses últimos dois anos de sumiço, a começar pela minha vida profissional. 

Como alguns de vocês devem saber, tenho uma pequena empresa prestadora de serviços, que é a minha principal fonte de renda (ou pelo menos deveria ser).

No momento a empresa é composta por quatro sócios, uma secretária e um estagiário. Esqueçam a secretária e o estagiário, pois eles não têm relevância para o que vou contar.

Um dos sócios é bem mais velho, mais experiente e mais conhecido no mercado. Ele é o motor político da empresa e o grande captador de novos clientes.

Os outros três sócios (o qual me incluo) cuidam do trabalho técnico, passando o dia inteiro botando a mão na massa. Claro que nós três nos esforçamos para captar novos clientes também, mas estamos sempre abarrotados de trabalho, então o networking e a captação de clientes acaba ficando na mão do sócio mais velho mesmo.

O sócio mais velho e eu.
As coisas estavam indo relativamente bem até que, em 2018, o sócio mais velho assumiu uma posição de destaque dentro da maçonaria.

Maçonaria, como vocês devem saber, é uma instituição centenária formada por homens que se associam para idolatrar o capiroto exercer as virtudes da fraternidade, cidadania, ética etc.

"Com essa minha nova função lá dentro, garanto para vocês que muitas portas se abrirão para a nossa empresa, pois estarei em contato direto com a elite do empresariado do nosso estado", prometeu o sócio mais velho. 

Naturalmente fiquei empolgado, e comecei a sonhar acordado com todo o dinheiro que ganharíamos graças à posição de destaque alcançada por nosso sócio dentro daquela instituição.

Eu atrás da árvore esperando meu sócio mais velho captar dezenas de novos clientes
Foi dentro desse contexto que o sócio mais velho passou a se dedicar com força às atividades maçônicas, planejando as reuniões e eventos sociais, resolvendo as briguinhas de ego entre o maçom A e o maçom B, comparecendo no velório do maçom C, visitando a esposa do maçom D no hospital, ligando pro maçom E para parabenizá-lo pela aprovação do filho no vestibular de artes cênicas, ligando pro maçom F para parabenizá-lo pela primeira menstruação da filha dele, enfim, dezenas de ligações todo santo dia, para tratar de todo tipo de fuleiragem.

Eu particularmente fiquei um pouco incomodado com tantas ligações telefônicas dentro do ambiente de trabalho, pois isso atrapalhava minha concentração.

De qualquer forma, fui bem tolerante com a situação, já que essa atividade social do sócio mais velho se converteria em dezenas de novos clientes para a nossa empresa, certo?

Errado. 

Expectativa / Realidade
O fato é que o sócio mais velho, embora estivesse de corpo presente diariamente na nossa empresa, passou a se dedicar completamente à gestão dele na maçonaria, ignorando o trabalho de captação de clientes que ele fazia anteriormente.

O tempo foi se passando e ele simplesmente não captava cliente algum, agindo como se tivesse sido dominado por algum tipo de retardo mental que o fazia priorizar uma atividade voluntária e não remunerada em vez de focar na empresa que garante o nosso ganha pão de cada dia.

Sem novos clientes e serviços, com o passar dos meses as receitas da nossa empresa foram minguando, até se tornarem insuficientes para cobrir as despesas mensais. 

Começamos a girar no negativo, tendo que tirar dinheiro da reserva de emergência da empresa para arcar com as despesas fixas e mantê-la em funcionamento.

Como não estava entrando dinheiro nem mesmo para bancar a existência da empresa, evidentemente que não tínhamos lucro para distribuir aos sócios, então tive que contar com minha reserva de emergência particular para enfrentar o período de seca.
Na pindaíba
A princípio fiquei puto em silêncio, inocentemente acreditando que aquilo era apenas uma situação passageira e que o sócio mais velho cumpriria o que prometeu e captaria uma enxurrada de clientes novos.

Com a reserva de emergência da empresa diminuindo drasticamente e os ânimos se acirrando, eis que veio a gota d'água: não satisfeito em ficar meses sem captar um cliente sequer, o sócio mais velho chamou uma reunião e perguntou se a gente concordava em prestar um serviço para um cara da maçonaria, mas com um pequeno detalhe: o serviço seria gratuito, pois o cara estava passando dificuldades financeiras.

Você só pode estar de sacanagem com a minha cara
Esse pedido indecente emputeceu todo mundo, e resultou em uma discussão acalorada em que eu tive a oportunidade de botar pra fora todo o estoque de comentários passivo-agressivos que eu estava estocando na minha mente durante um bom tempo.

No fim das contas, o sócio mais velho recuperou a lucidez e reconheceu que vacilou nos últimos meses.  Depois disso, felizmente, ele tomou vergonha na cara e começou a se esforçar pra mostrar serviço dentro da nossa empresa, retomando o trabalho de captação de clientela.

O problema é que já era tarde demais pra salvar o ano de 2018. Passamos o resto daquele ano apenas repondo a reserva de emergência da empresa, sobrando pouco ou nada para distribuição de lucro. 

Chegamos em 2019 com a reserva de emergência da empresa devidamente recomposta, o que melhorou nossas distribuições de lucro, e me permitiu recompor a minha própria reserva de emergência que eu havia consumido no ano anterior.

Resumindo, 2018/2019 foram anos perdidos em termos de evolução patrimonial, em especial graças ao coleguinha que, por algum motivo obscuro, achou que seria uma excelente ideia parar de fazer seu trabalho e quase quebrar a empresa.

O ano de 2020 começou relativamente bem, o que me fez acreditar que eu finalmente entraria em uma temporada de aportes pomposos.

Só que agora a pandemia de coronavírus paralisou o país e fechou a minha empresa até sabe-se lá quando. Se essa situação demorar demais para se resolver, provavelmente amargarei mais um ano de estagnação financeira.

Comecei 2020 animado, agora estou preocupado
Então é isso, meus amigos. Hoje vim aqui só para dizer que, nesses últimos dois anos, financeiramente eu não saí do lugar.

Apesar dos infortúnios, já recompus minha reserva de emergência, não precisei resgatar meus investimentos, vender o apartamento ou alguma outra atitude mais drástica, então você há de convir comigo que poderia ter sido bem pior.


No post que vem eu volto pra compartilhar mais coisas que andei fazendo nesses últimos anos - coisas bem mais interessantes do que quase falir uma empresa.

Aquele abraço!

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A era dos especialistas em nada

Há não muito tempo atrás, Márcio (nome fictício por motivos óbvios) adentrou no mundo do empreendedorismo e abriu uma tapiocaria super descolada num bairro boêmio da cidade, com direito a um ambiente retrô e uma jukebox tocando músicas de época.

Tapiocaria retrô (foto meramente ilustrativa tirada do Google Imagens)
Para ter uma estreia avassaladora, Márcio resolveu que a inauguração de sua tapiocaria seria fechada ao público.

Foram convidados apenas amigos próximos, familiares, colunistas sociais, jornalistas, blogueiras de moda, instagramers do mundo fitness (aquelas mulheres que postam foto malhando e são seguidas por milhares de pessoas), além de um ator do quinto escalão da Globo que recebe cachê para comparecer em eventos aleatórios.

Os colunistas sociais retribuíram o convite divulgando a tapiocaria "ma-ra-vi-lho-sa" nos jornais, as blogueiras do mundo fashion tiraram várias selfies no local, as instagramers fitness postaram fotos de tapioca com rúcula e tomate seco para seus milhares de seguidores admirarem, e o ator global sorriu para as fotos, embolsou seu cachê e foi embora pra nunca mais voltar.

Beba champanhe e coma canapés na exclusiva inauguração dessa elegante tapiocaria
A estratégia de marketing na inauguração deu certo. A tapiocaria passou a ficar sempre cheia, e Márcio passou a se auto-promover como empreendedor de sucesso, um jovem prodígio, um verdadeiro Jorge Paulo Lemann das tapiocas.

Com bastante culto à própria personalidade e uma ajudinha da imprensa que faz reportagem sobre qualquer bosta, Márcio logo foi alçado à posição de jovem prodígio da iniciativa privada, passando a aparecer em matérias sobre pessoas com menos de 30 anos que têm negócios de sucesso, bem como ganhando prêmios de "jovem revelação" dentro dos órgãos de classe e associações empresariais.

Em seus perfis nas redes sociais, Márcio fez jus ao seu status de "expert em empreendedorismo" e passou a ensinar aos reles mortais sobre o poder do pensamento positivo, sobre como você deve acreditar nos seus sonhos, como empreender para mudar o mundo vendendo tapioca, sair da zona de conforto, enfim, todo aquele papo chato pra cacete que todos nós já conhecemos muito bem.

Além de administrar a tapiocaria, Márcio começou a flertar com o empreendedorismo de palco
Enquanto se tornava uma subcelebridade local e espalhava a palavra do empreendedorismo com o mesmo furor que um jesuíta catequizava índios no Brasil colonial, Márcio não atentou ao fato de que sua tapiocaria estava perdendo movimento.

Não sei se em outras regiões do país é diferente, mas em regra uma tapiocaria é o tipo de lugar que você vai uma vez, pensa "ok, legal" e nunca mais volta. Foi assim que me senti quando visitei a tapiocaria do Márcio, e é assim que a absoluta maioria das pessoas provavelmente se sentiu também.

Foi só o estabelecimento do Márcio deixar de ser "a novidade do momento" que o faturamento começou a cair. Com a queda no faturamento veio a dificuldade de pagar empregados e os fornecedores, que por sua vez se negavam a continuar fornecendo os insumos até a quitação dos débitos.

Quando você tem um restaurante e fica sem crédito com os fornecedores do Ceasa, só lhe resta comprar ingredientes mais caros e menos frescos em supermercados, o que diminui ainda mais a sua margem de lucro e a qualidade das suas refeições.



Com a crescente queda no faturamento, não demorou muito tempo até Márcio não ter mais dinheiro para pagar o aluguel do lugar onde funcionava a tapiocaria, e o calote que ele deu no locador do imóvel resultou num processo de despejo e de cobrança de alugueis atrasados.

Sentindo-se encurralado por dívidas vindas de todos os lados, o jovem empreendedor de sucesso dispensou todos os funcionários, fechou as portas da tapiocaria, tornou privado seus perfis pessoais, deletou os perfis da empresa nas redes sociais e "desapareceu".

Não sei. Ninguém sabe.
Mais e mais processos judiciais pipocavam contra Márcio e sua falida tapiocaria, dentre eles ações trabalhistas ajuizadas pelos ex-empregados.

Todos os ex-empregados alegam que nunca tiveram a carteira de trabalho assinada, que não recebiam nenhuma verba trabalhista (FGTS, horas extras etc) e que recorrentemente sofriam assédio moral.

Só pra vocês terem uma ideia do alto nível de profissionalismo desse premiado empreendedor, esse é o teor de um processo de uma ex-empregada da tapiocaria que recebi pelo WhatsApp:

O mundo dá voltas, não é mesmo? Num momento o sujeito está lá falando sobre acreditar nos seus sonhos como receita garantida para o sucesso, e em questão de meses está afundado em dívidas, fugindo de credores e respondendo a todo tipo de processo, inclusive inquérito pelo crime de apalpar peitinho alheio.

Mas enfim, eu contei a aventura empresarial do Márcio pra dizer que, depois de alguns meses sumido, ele finalmente retomou com as aparições públicas, especialmente nas redes sociais.

Só que agora ele não se apresenta mais como o jovem enterpreneur de sucesso, e sim como...

Life Coach
Business Coach

Isso mesmo, Márcio agora é coach.

O camarada cujo histórico consiste em molestar garçonete, falir tapiocaria e fugir de dívidas agora está aí, pronto para te dizer como você deve viver sua vida e administrar seus negócios.

Todos os dias Márcio fala para seus seguidores sobre programação neurolinguística, como vencer desafios, aumentar produtividade, maximizar resultados de sua empresa e o caralho a quatro.

Márcio ajudando os outros com sua vasta experiência
São 13 milhões de desempregados no Brasil, dentre eles milhões de desesperados que procuram, procuram e não encontram nenhuma colocação no mercado de trabalho.

Esse cenário foi terreno fértil para proliferação dos coaches, cuja ampla maioria consiste em pessoas carismáticas que misturam autoajuda com conhecimento pseudocientífico para supostamente revolucionar a vida das pessoas que pagam por seus serviços.

Obviamente o coach te cobra uma boa quantia em dinheiro para te ajudar a "mudar para a melhor", e  é claro que se no fim das contas você não sentir nenhum resultado, é porque você não se esforçou o suficiente.

Como hoje em dia um vídeo no YouTube vale mais do que mil palavras, eu recomendo fortemente que vocês assistam os vídeos abaixo. Aviso de antemão que, apesar de serem vídeos bem curtos, são tão constrangedores que beiram o obsceno:



A absoluta falta de regulamentação sobre essa "profissão" faz com que qualquer ser humano possa se autointitular "coach".

Aliás, você pode ir mais além e se autointitular master coach, que é o que alguns já fazem para se apresentar como uma versão evoluída em relação aos coaches comuns.

Digo mais: você pode criar o Instituto Interamericano de Coaching e vender por R$ 4 mil um cursinho online de 12 horas-aula, em que quem assistir até o final receberá o certificado de Supreme Mega Coach, ou seja, quem comprar seu curso será muito mais fodão que um mero master coach.

Como vocês podem ver, o céu é o limite para a putaria quando uma profissão não tem regulamentação alguma.

Esse desconhecido fez um curso para Leader Coaching em alguma instituição que ninguém nunca ouviu falar e agora está pronto para te dar aulas de liderança
Antes de dar ouvido àquele sujeito simpático que diz que pra você conquistar o mundo basta acreditar nos seus sonhos, peço que se lembrem que o cara que está tentando te dar lições de vida pode ser um vendedor de tapioca falido que não tem autoridade alguma para te aconselhar no que quer que seja.

E o pior de tudo é que Márcio sequer é o único coach de credibilidade duvidosa que eu conheço. Conheço também uma menina que durante muito tempo trabalhava com venda de pulseiras Power Balance no mercado livre (quem se lembra desse troço?), depois casou e virou dona de casa, e agora divorciou e virou coach de emagrecimento.

E vocês, amigos? Conhecem algum coach? Já tiveram experiência com isso? Se você é coach e ficou chateado com o post de hoje, arranja uma profissão de verdade antes de dar faniquito nos comentários.

Aquele abraço!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Secretárias bizarras do Seu Madruga

Fala galera, tudo bem?

Pra quem ainda não sabe, tenho uma empresa cujo extenso quadro de empregados consiste em uma secretária.

Essa estrutura já foi maior em determinados momentos (já tivemos auxiliar administrativo, office boy, estagiário...), mas no fim das contas percebemos que uma secretária é o suficiente, o resto a gente se vira.

E porque uma secretária é tão imprescindível assim?

Para recepcionar clientes, atender telefone, preparar e servir café, manter o ambiente organizado, repor material de escritório, agendar reuniões, digitalizar ou fotocopiar documentos, enfim, esse tipo de coisa, tudo muito simples de se fazer.

Apesar de ser um trabalho tranquilo de se realizar e de pagarmos ligeiramente acima do valor de mercado, ao longo dos anos comemos o pão que o capiroto amassou para encontrar uma secretária decente

E o post de hoje é justamente sobre isso: as secretárias bizarras que passaram pela empresa do Seu Madruga.


Vamos a elas:

1) Gabriela, a estudante

Gabriela era uma simpática menina do interior que veio tentar a sorte na cidade grande.

Depois de alguns meses trabalhando como secretária na minha empresa, ela nos contou que iria começar a fazer um curso de graduação à noite, pois foi aprovada no vestibular do curso de administração em alguma uniesquina obscura, mas que isso em nada ia atrapalhar o trabalho dela na empresa.

Parabéns pela conquista, Gabriela
Meu sócio mais velho ficou bem comovido com esse esforço da menina em trabalhar e se qualificar para melhorar de vida, e propôs que nossa empresa desse uma ajuda de custo de R$ 500,00/mês para ela, contanto que ela conseguisse conciliar trabalho e faculdade e tirasse notas boas.

Nenhum dos sócios (eu, inclusive) concordou com essa ideia, então meu sócio mais velho decidiu que daria essa ajuda de custo por conta própria e com dinheiro vindo do bolso dele. Ele realmente estava determinado a ajudar a secretária, pois ele veio do mesmíssimo cafofo no interior que ela e queria ajudar a conterrânea.

Depois de um semestre pagando a tal ajuda de custo, meu sócio mais velho cobrou da secretária o desempenho dela no primeiro período de faculdade, para saber se ela estava cumprindo o compromisso de tirar boas notas.

Após perceber um comportamento furtivo da Gabriela em falar sobre esse assunto, meu sócio mais velho ficou desconfiado e foi à uniesquina para averiguar se ela realmente estava fazendo o tal curso de graduação em administração.

Como vocês já devem imaginar, a menina não estava cursando porcaria nenhuma. Ela até chegou a se matricular, mas depois disso não deu continuidade, nunca tendo pisado na sala de aula ou pago mensalidade.

A ajuda de custo paga por fora pelo meu sócio não estava sendo revertida em estudos, mas sim em baladinhas sertanejas nos fins de semana.

Como reagi quando soube
E o pior de tudo é que, todo dia às 18 horas, Gabriela ia embora e a gente se despedia desejando uma boa aula, acreditando que ela estava indo estudar após um longo dia de trabalho.

Depois de um vacilo desses não foi possível mantê-la em nossa empresa, então demitimos ela sem justa causa.

2) Brenda, a secretária relâmpago

Depois de demitir Gabriela, fizemos um contrato de experiência com Brenda.

Brenda começou a trabalhar numa segunda-feira e, na quarta-feira da mesma semana, apareceu na empresa com o dedo indicador de uma das mãos fraturado e um atestado médico afastando-a do trabalho por um mês. UM MÊS.
 
Pode isso, Arnaldo? Eu não faltei ao trabalho nem quando estava com um braço inteiro imobilizado, e a menina quer ficar fora um mês por causa de um dedo?
Não lembro bem os pormenores dessa situação, só sei que mandamos ela catar coquinhos cuidar do dedo fraturado bem longe de nossas vidas e nunca mais a vimos.

3) Scheila e o marido invasor

Não vou entrar em detalhes sobre Scheila pois já escrevi um post contando tudo o que aconteceu. Mas resumindo: num domingo aleatório fui na minha empresa e flagrei o marido dela furtando nosso material de escritório.

4) Ivone, a mamãe

Ivone tinha uns 25 anos de idade, era casada e tinha um filho bebê.

Ela disse na entrevista de emprego que o filho bebê não seria um problema para a empresa, pois a avó da criança morava ao lado e adorava cuidar dela.

Votei contra a contratação de Ivone por conta do filho bebê, mas meus sócios decidiram contratá-la, acreditando que a vovó-babá cuidaria da criança e que Ivone se sentiria compelida a trabalhar direito, afinal tinha um filho para sustentar.


Ivone fez tudo dentro do esperado durante o contrato de experiência, então efetivamos a contratação.

Foi só contratar de forma definitiva que veio a primeira falta por motivo de "filho passou mal e tive que levar no hospital". 

Depois disso, faltas por motivos de "filho doente" começaram a se tornar recorrentes, primeiro uma vez a cada duas semanas, depois semanalmente, depois vários dias seguidos numa mesma semana. 

Eu avisei que ia dar merda, não avisei?
Já estávamos decididos a demiti-la quando, mais uma vez, Ivone faltou ao trabalho sob o pretexto de que o filho estava passando muito mal e ela teria que ficar em casa cuidando dele.

Quando a secretária falta, sou eu quem puxa e atende todos os telefonemas. Foi aí que recebi a seguinte ligação:

Pessoa desconhecida: Alô, bom dia. Aí é da empresa X?
Madruga:  Sim. 
Pessoa desconhecida: Poderia me informar se a Ivone trabalha aí?
Madruga: Quem está falando?
Pessoa desconhecida: Aqui é da loja Y. A Ivone está aqui fazendo um crediário, e preciso confirmar se ela realmente trabalha aí, pra completar o cadastro dela. 
Madruga: A Ivone tá aí?
Pessoa desconhecida: Sim.
Madruga: Fazendo compras?
Pessoa desconhecida: Sim. 
Madruga: Ela não trabalha aqui não.

Vejam só que safada, faltando sob o pretexto de que o filho estava doente, mas lá estava ela comprando tralhas em 48x no crediário. 

Mais uma.
Depois de vários perrengues, felizmente conseguimos encontrar uma excelente secretária. Ela é muito profissional, comprometida com o trabalho e veste a camisa da empresa. Ela é provavelmente bem mais dedicada à empresa do que eu seria se estivesse no lugar dela.

Mas enfim, o post de hoje foi totalmente despretensioso, só para compartilhar essa pequena experiência de empreendedorismo da vida real, a se contrapor um pouco ao empreendedorismo que vendem na televisão onde tudo funciona bem e dá maravilhosamente certo.

Aquele abraço!

domingo, 4 de setembro de 2016

[Caso Menina do Vale e] Desempenho agosto/2016 (+2,68%)

Há algo podre no reino dos empreendedores de palco

E se essa era uma sensação que eu já tinha entalada dentro de mim há muito tempo, a coisa toda ficou ainda mais clara no mês de agosto.

Isso porque alguns comentaristas deste blog me alertaram que, alguns dias após eu ter publicado o post "Nos bastidores do empreendedorismo fofo", uma das pessoas que citei no post se tornou motivo de chacota a nível nacional ao ter sido completamente desmascarada por um dossiê do blogueiro Izzy Nobre chamado "porque a Menina do Vale não vale tanto assim".

No dossiê em questão, o nosso cuck favorito Izzy Nobre demonstra, de uma forma muito sólida, como a moça que se autointitula a Menina do Vale [do Silício] fantasiou bastante coisa sobre seu currículo acadêmico e vida profissional, tudo para inflar a própria imagem e ganhar dinheiro seduzindo pessoas que são ingênuas ao ponto de acreditar que ela de fato é um guru do empreendedorismo.

Minha reação lendo o dossiê do Izzy
O dossiê em questão repercutiu bastante, ao ponto do Facebook oficial da "Menina do Vale" ser inundado por milhares de comentários de pessoas exigindo que a Bel Peixe desse as devidas explicações.

Depois de alguns dias em silêncio, anteontem a menina finalmente apresentou sua resposta ao dossiê do Izzy Nobre, uma resposta que, ao meu ver, só deixou ainda mais claro que o Izzy tem razão na absoluta maioria dos fatos expostos em seu dossiê.

Se você não tiver nada melhor pra fazer, sugiro que leia o dossiê do Izzy e a resposta da Bel Peixe para tirar suas próprias conclusões sobre o caso.
Tentando analisar a treta da maneira mais imparcial possível, a conclusão a que chego é a seguinte:

Bel Peixe se graduou numa das mais renomadas instituições tecnológicas do mundo, e provas documentais demonstram que ela concluiu o curso com um desempenho excelente. Se você tem um diploma do M.I.T. em mãos, você automaticamente ganha status de pica grossa, e provavelmente portas se abrem pra você em qualquer lugar do mundo em termos profissionais.

Apesar do currículo invejável, ela não conseguiu florescer como empreendedora nos EUA, e falo isso sem nenhum demérito, pois eu dificilmente conseguiria me dar bem por lá também.

De volta ao nosso país subdesenvolvido, a Menina do Vale percebeu que era possível monetizar a sua imagem de garota com diploma fodão que traz conceitos de empreendedorismo diretamente do Vale do Silício.

A sempre irresponsável imprensa brasileira engoliu tudo que a Bel tinha pra falar sem se preocupar em checar a veracidade das informações, o que tornou a moça ainda mais conhecida no Brasil como "a menina que conquistou o Vale do Silício".

Ao se encontrar no centro dos holofotes e diante de uma mídia sedenta por mais relatos sobre as conquistas dela no Vale do Silício, a Menina do Vale passou a exagerar sobre sua própria história, dizendo que tinha 5 diplomas do MIT, que teve posições de liderança no Google e Microsoft (foram, na verdade, curtos estágios de verão durante os tempos de faculdade), dentre outros exageros que eu não vou escrever aqui, pois já foram expostos de maneira bastante didática no dossiê do Izzy.

Com a projeção nacional que conseguiu, nossa amiga ganhou dinheiro vendendo livros, palestras e sonhos.
Continuo ansioso pelas "cenas dos próximos capítulos" dessa treta, e espero que justiça seja feita em relação à Menina do Vale.

A justiça, no caso, é incluí-la no hall da fama dos enganadores, junto com aquele cara que fingiu ser filho do dono da Gol e enrolou bastante gente Brasil afora, e daquela "falsa grávida de Taubaté" que teve seus 15 minutos de fama fingindo que estava grávida de quadrigêmeos, mas na verdade o barrigão que ela ostentava era um monte de fronha de travesseiro e lençol.

É cada coisa que me aparece...
E qual lição podemos tirar disso? Algo que está nas entrelinhas do meu post sobre o empreendedorismo fofo: não acredite em vendedores de sonhos, acredite em vendedores de realidade.

Há tanto a se aprender com Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira, Marcel Telles, Abílio Diniz, Jeff Bezos, Elon Musk, blog do Corey, Peter Thiel e dezenas de outras pessoas, e a galera vai buscar inspiração em Bel Peixe? Pelas barbas do profeta!

Parabenizo o gordinho canadense pelo dossiê e por ter dado a cara a tapa em busca da verdade. Se ele investigar outros empreendedores de palco, certamente verá que tem muito teto de vidro para ser quebrado por aí.

MAS ENFIM. 

Já consumi mais tempo do que gostaria escrevendo este post, então serei bem objetivo ao tratar do meu desempenho em agosto/2016:

Em agosto dei mais um passo de tartaruga rumo aos R$ 100k.
Posição consolidada em Renda Variável, onde tenho alocado 4 FIIs:


Meus 4 FIIs (BBPO, KNRI, AGCX e RNGO) analisados um a um:




Não tenho nada de notável para compartilhar em relação ao mês de agosto.

Na verdade tenho novidades em relação ao caso  "Vovó Safada - Parte 1", mas isso será objeto de post específico que escreverei em setembro.

Por hoje é só, confrades. Aquele abraço!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Nos bastidores do empreendedorismo fofo

Hemorróidas cresceram no meu cérebro depois que assisti o vídeo abaixo:


Pra você que por qualquer motivo que seja não pode ou não quer assistir o vídeo, vou resumi-lo:

O cara basicamente diz que empreender é não se conformar com injustiças, é você se apaixonar pela oportunidade de encontrar problemas e solucioná-los, que o empreendedorismo atual não é mais pelo dinheiro, mas sim uma missão e um propósito, que o dinheiro é só um meio, e que o fim é gerar valor para a sociedade.

Enfim, a mensagem que o cara se propõe a passar no vídeo pode ser resumida da seguinte forma: empreender pelo dinheiro é coisa do passado, o negócio agora é empreender por um mundo melhor.

Como me sinto toda vez que ouço esse papo
Provavelmente vocês já ouviram antes esse discurso do "empreender por um mundo melhor". Eu não sei se esse discurso tem um nome próprio, então aqui neste post vou chamá-lo de empreendedorismo fofo, pois você há de convir comigo que é um papo bem bonito.

O discurso do empreendedorismo fofo em regra é propagado por três grupos de pessoas:

O primeiro grupo é constituído pelos empreendedores de sucesso que, só depois que ganharam rios de dinheiro, adotaram o discurso de "fazer a diferença no mundo", e agem como se mudar o mundo fosse seu objetivo principal desde o começo de suas trajetórias.

Exemplo: Mark Zuckerberg. Primeiro ficou rico, e depois veio com o papo de que seu objetivo sempre foi fazer a diferença no mundo. Tá certo.
O segundo grupo é constituído pelas pessoas que não se encaixam no primeiro grupo, mas que divulgam o discurso do empreendedorismo fofo com um único objetivo: aumentar o próprio patrimônio.

Exemplo clássico de um membro do segundo grupo: essa moça aí, ou o cara do vídeo no começo do post. 
Por fim, o terceiro grupo é representado por pessoas ingênuas que acreditam que as pessoas do primeiro grupo realmente tinham "mudar o mundo" como objetivo principal quando começaram a empreender, e que acreditam que as pessoas do segundo grupo tem algum objetivo diverso de ganhar dinheiro vendendo um discurso fofo, bonito e vendível.

Exemplo clássico de membros do terceiro grupo
Os três grupos acima não são tão fáceis de entender numa primeira leitura, mas eles resumem bem o que há por trás do discurso do "empreendedorismo fofo".

Por mais bem intencionado que você seja, fique então ciente de que só existe um motivo racional para se abrir uma empresa: a perspectiva real de ganhar dinheiro.

Não abra uma empresa motivado pelo conto do empreendedorismo fofo. Aliás, não abra uma empresa por qualquer motivo que seja, a não ser que esse motivo seja a possibilidade de ser bem recompensado financeiramente pelo risco ao qual você está se sujeitando.

Se por acaso você tiver uma ideia que contribui para um mundo melhor, só a coloque em prática por meio do empreendedorismo se você tiver expectativa de que essa ideia traga um bom retorno financeiro.

Se você tiver uma ideia que em nada contribui para um mundo melhor, mas que é atividade lícita e traz boa perspectiva financeira, coloque-a em prática sem se importar se ela é fofinha ou não.

Não é a capacidade de construir um mundo melhor que deve determinar se você deve abrir uma empresa ou não, mas sim a perspectiva de retorno financeiro ao se executar atividade lícita, por mais inútil que a atividade possa parecer.

Se você sente uma necessidade enorme de contribuir para um mundo melhor, mas acha que essa sua vontade de contribuir não traz retorno financeiro, vá fazer trabalho voluntário, ajudar a APAE, criar uma ONG, abraçar mendigo na rua, qualquer coisa menos abrir uma empresa.

Empresa é pra se fazer dinheiro dentro dos limites da lei, meus caros. Não se iludam com esse papo arco-íris de "se apaixonar pela oportunidade de resolver problemas e solucioná-los" e toda a retórica desprovida de fundamentos que acompanha o discurso do empreendedorismo fofo.

Sonho com um país melhor e, de formas que não convêm mencionar neste post, faço a minha parte para que isso aconteça.

No entanto, no quesito empreendedorismo, peço a todos que coloquem o pé no chão, deixem o romantismo de lado e sejam racionais: empresa é pra ganhar dinheiro. Todas as pessoas do primeiro grupo mencionado neste post (Mark Zuckerberg, Bill Gates etc) sabiam muito bem disso, tanto é que primeiro garantiram suas respectivas fortunas pessoais, e só depois revelaram ao mundo suas almas caridosas.

Aquele abraço!

domingo, 3 de julho de 2016

Desempenho junho/2016 (+4,83%)

Nesse mês de junho dei mais um passo de tartaruga rumo aos R$ 100k. Vejamos:


Aproveito o fim do semestre para comparar a rentabilidade do meu patrimônio com a de alguns blogueiros que já fizeram seus posts de junho:

Mestre dos Dividendos: 1% a.m.
Investidor Livre: 2% a.m.
Dr. Honorários: 2,5% a.m.
Surfista Calhorda: 3,12% a.m.
Executivo Pobre: 3,72% a.m.
Madruga: 0,67% a.m.


Ao contrário de mim, todos os colegas acima citados investem em ações e pelo visto o mercado tem sido generoso, o que pode explicar o bom desempenho deles, mas não justifica os meus pífios 0,67%.

Preciso, então, sentar na cadeira e tentar entender o que está acontecendo.

A propósito, vou dizer como está distribuído meu patrimônio, e se alguém descobrir o que está socando a minha rentabilidade para baixo, peço que me avise:

R$ 30k em LFT.
R$ 14,5k em NTN-B P 2019.
R$ 4.1k em LTN 2018.
R$ 25k em CDB de banco obscuro rendendo 1% a.m. líquido.
R$ 4,5k em KNRI11, rentabilidade no semestre de 3,4% a.m.
R$ 4,1k em AGCX11, rentabilidade no semestre de 0,98% a.m.
R$ 3,9k em RNGO11, rentabilidade no semestre de 0,44% a.m.
R$ 4,2k em BBPO11, rentabilidade no semestre de 2,5% a.m.
R$ 3,1k em Caderneta de Poupança.

Deve ter algo a ver com o fato de que parte relevante do meu patrimônio está aplicado em TD, eu registro valores líquidos na minha planilha, e no momento a tabela regressiva do IR ainda está na alíquota máxima. Será esse o motivo?

Empresa:

Mês tranquilo na minha empresa com uma distribuição de lucros mediana que me permitiu aportar 3.300,00 temers.

Em junho as expectativas de ver dinheiro grande entrando continuaram sendo meras expectativas, como aliás vem sendo desde que comecei a trabalhar.

Todo santo mês eu acho que vai entrar uma grana cabeluda e que farei um aporte turbinado, mas no fim das contas isso não acontece e meus posts de desempenho mensais são sempre compostos de aportes modestos.

Estou numa situação financeiramente confortável, mas que nem de longe considero satisfatória.

Digo isso pois não acho que vale a pena ser empresário e só ganhar em média 5 ou 6 mil temers por mês, como tenho ganhado.

Se for pra ganhar só isso, é bem melhor virar funcionário público, já que ao menos você terá estabilidade e nenhuma pressão.

Passe num concurso, deixe o pudor de lado e se junte ao clube dos que mamam nas tetas dessa prostituta chamada Estado brasileiro. Haja como se seu cargo fosse o mais importante do universo, conte para todo mundo sobre como você trabalha pesado, te garanto que por educação as pessoas vão fingir que acreditam.

Se for para ganhar só R$ 5/6 mil, também é preferível ser empregado na iniciativa privada.

Sei que ser empregado na iniciativa privada não é tão confortável quanto encostar num cargo público, mas ao menos você terá sua remuneração todo mês, terá direitos trabalhistas e o risco da atividade empresarial será do dono da empresa, e não seu.

"M-Mas eu quero empreender, não quero ter chefe e quero controlar meus próprios horários".

Ouço e leio bastante esse papo, inclusive na blogosfera.

É claro que todo mundo deseja isso, pois não ter chefe e poder controlar seus próprios horários é algo realmente fantástico.

Sinto-me muito bem em poder trabalhar sem gente me vigiando, sem bocas dizendo o que é permitido, sem precisar pedir autorização pra sair de tarde e resolver problemas pessoais.

Esse é o tipo de liberdade que, depois que você adquire, não quer mais perder nunca mais.

Mas o discurso do "empreender-não-ter-chefe-e-controlar-meus-horários" é sempre focado no bônus, o ônus quase sempre é deixado de lado.

O ônus a que estou me referindo é o risco da atividade empresarial.

O risco da atividade empresarial é o responsável pelo altíssimo índice de mortalidade das empresas que sempre se noticia por aí.

Ele é, em suma, a enorme possibilidade das coisas não acontecerem da forma como você planejava, e de brinde você ainda ser surpreendido com empecilhos e imprevistos inimagináveis, além de ter que lidar com um poder público hostil às empresas, que parece sentir prazer em atrapalhar.

É também a possibilidade de estar tudo bem com sua empresa por 10, 15, 20 anos, e depois você sofrer algum revés violento, falir e passar o resto da vida tendo que manter seu patrimônio em nome de terceiros para fugir de credores e juízes trabalhistas.

É um campo minado, um risco que não vale a pena correr por R$ 5/6 mil, pois a falência costuma ser algo infinitamente mais drástico do que ser demitido de um emprego, e por isso eu volto a repetir: se você almeja ganhar só isso, seja funcionário público ou empregado.

No meu específico caso, sigo tocando uma empresa pois acredito piamente que ela renderá bons frutos. Se algum dia eu perder a fé na possibilidade de enriquecer com minha empresa, seguirei o conselho deste post e procurarei outros rumos.

Vida pessoal:

No campo pessoal junho é um mês que não me agrada por dois motivos: (1º) tem o dia dos namorados, data criada com o único intuito de transferir dinheiro do seu bolso para o bolso dos comerciantes, e (2º) além disso eu completo "x" anos de namoro, outra situação que me deixa moralmente vinculado a fazer um agrado para a parceira.

Como me sinto todo mês de junho
É um mês que sempre me põe a pensar sobre como o ato de dar presente é estranho.

Presentear é algo tipo: "gosto tanto de você que gostaria de demonstrar apreço te dando essa sapatilha que me custou R$ 170,00, que eu não sei se você vai gostar ou simular que gostou, não sei se vai caber no seu pé ou se você vai ter que ir na loja trocar, não sei se você compraria essa sapatilha se os R$ 170,00 que eu gastei fossem seus, mas enfim, eu precisava te dar algum objeto manufaturado para demonstrar minha estima e consideração, então sorria".

Não faz sentido.

Eu gostaria que houvesse um acordo entre todas as pessoas que eu conheço e eu proibindo a troca de presentes entre si, de modo que quem quiser mostrar apreço um pelo outro assim o faça mediante carta, SMS, telefonema, WhatsApp, Telegram, Facebook, Orkut, sinal de fumaça, marcarem de se encontrar etc, tudo menos presentes.

Mas no geral eu já sou socialmente estranho por uma série de outros motivos, então por ora vou continuar entrando na dança do presente e continuar agindo como se o ato de presentear fizesse algum sentido, embora para mim não faça.

Há outros assuntos que quero comentar, mas vou fazer isso em posts separados ao longo de julho.

Aquele abraço! Bom 2016/2 a todos!

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Kátia, a ingrata

Não muito raro pessoas desesperadas procuram minha empresa com problemas graves e, depois que resolvemos o pepino delas, elas fazem cu doce para nos pagar e até mesmo têm a coragem de desmerecer o trabalho desenvolvido para tentar diminuir a nossa remuneração.

Hoje vou compartilhar com vocês uma situação que está se desenrolando neste mês de abril. Se você não gosta de desonestidade, se prepare para ficar puto. 

Em 2013 uma senhora chamada Kátia (nome fictício por motivos óbvios) compareceu lá na empresa com um problema daqueles: fora autuada pela Receita em R$ 180 mil.
Receita de olho no dinheiro da mulher
Kátia disse que procurou advogados, contadores, auditores, pais de santo, enfim, todo tipo de profissional, e todos disseram que não havia nada a ser feito no caso dela a não ser pagar o valor integral da autuação.

Fechamos um contrato com Kátia em que nos comprometemos a tentar resolver o problema dela perante a Receita, e como contraprestação ela nos pagaria R$ 9 mil de entrada e 5% do valor do êxito (ou seja, se conseguíssemos livrá-la de pagar R$ 180 mil, ela teria que nos pagar mais 5% de R$ 180 mil).

Com o contrato assinado e o valor da entrada pago, demos início à prestação de serviço. 

Constatamos que a Receita só tinha razão em cobrar R$ 24 mil, orientamos a cliente a pagar esses R$ 24 mil e impugnamos os R$ 156 mil que entendemos que o fisco estava cobrando indevidamente.

Com a lerdeza típica do serviço público, somente agora em abril de 2016 saiu o resultado da impugnação: totalmente procedente, ou seja, conseguimos livrar a Kátia de pagar R$ 156 mil.


Sensação boa de dever cumprido
Telefonei para a Kátia para dar as boas notícias e, claro, cobrar os 5% sobre o êxito, ou seja, R$ 7.800,00 (5% de R$ 156 mil).

Kátia: Nossa, R$ 7.800,00? Tudo isso?! 
Madruga: Sim, o contrato que você assinou conosco prevê que você pagará 5% sobre a economia fiscal, e conseguimos com nosso trabalho te livrar de pagar R$ 156 mil.
Kátia: Tá muito caro esses R$ 7,8 mil, se eu soubesse que seria isso tudo não teria contratado. 
Madruga: Como assim "se eu soubesse"? Está no contrato, a senhora sabia.
Kátia: Olha, isso foi em 2012, eu sinceramente não lembro porque contratei vocês, eu poderia ter feito essa impugnação na Receita sozinha.
Minha cara quando a jabiraca disse isso
Mandamos o boleto para o e-mail da Kátia e estamos tentando contato telefônico, mas ela não atende mais as ligações.

Muito provavelmente essa situação vai descambar em uma cobrança judicial. 

Resumo da ópera: a desgraçada cachorra filha da puta arrombada Kátia nos procura dizendo que ninguém que ela procurou antes conseguiu uma solução pro problema dela, nós conseguimos uma solução pro problema e a livramos de pagar R$ 156 mil, e, na hora de nos pagar módicos R$ 7,8 mil pelo serviço prestado, a ingrata diz que poderia ter resolvido o problema sozinha, corta contato conosco e muito provavelmente nos obrigará a entrar com ação na justiça.

Essa é a sina do prestador de serviço: você lidará com clientes que te tratam como um semideus quando precisam de você, e na hora de acertar as contas entram na defensiva e pisam em cima do serviço que você prestou.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Gasolina com os dias contados?

Nos primórdios da história automobilística haviam carros elétricos, a vapor e de combustão interna. 

Um carro elétrico em 1884
Eram todos uma merda, cada um com suas respectivas limitações, até que Henry Ford revolucionou a coisa toda criando carros com preço acessível e "user friendly", suprindo algumas necessidades que os consumidores finais nem sabiam que tinham.

Ford Model T
Foi por conta do Ford que os carros começaram a ser produzidos em escala industrial, e o motor que passou a prevalecer desde então é o de combustão interna.

O carro elétrico só foi ressuscitar muito tempo depois, mais especificamente na década de 1990, quando o governo da Califórnia decretou que certa porcentagem dos carros produzidos ali deveriam ter emissão zero de carbono.

Ao mesmo tempo que fazia um lobby violento para o decreto cair, a GM resolveu cumpri-lo lançando o EV1, o primeiro carro elétrico produzido em massa na história (pouco mais de mil unidades).

Feio pra cacete, porém silencioso e rápido, a versão mais moderna do EV1 tinha bateria com autonomia para 257km.
A GM não vendia EV1, fazia leasing sem opção de compra.

Assim que o decreto californiano caiu por pressão das montadoras, a GM recolheu todos os EV1 que estavam em circulação e mandou triturá-los, para desgosto dos usuários do veículo em questão.

Com o fim do decreto, as montadoras puderam respirar aliviadas novamente, pois poderiam continuar focando no que sabiam fazer de melhor: o bom e velho carro movido a combustível fóssil.

"Ufa!", pensaram as montadoras
Mas por quais motivos o carro elétrico é indesejado pelas montadoras?

A resposta é simples: o mercado de carros é majoritariamente à combustão e elas dominam esse mercado, então não há razão para arriscar uma mudança. Em outras palavras, "em time que está ganhando não se mexe".

Mudança envolve gastos com pesquisa, envolve a entrada de novos players no mercado, envolve uma possível nova divisão do mercado, envolve um esforço e um risco que para as montadoras simplesmente não compensa, pois elas já detêm todo o know-how para fazer fortuna com as coisas do jeito em que estão.

Felizmente para a camada de ozônio, uma pessoa chegou para destruir a centenária indústria automobilística baseada em motor de combustão interna, e ao que tudo indica ele tem as credenciais necessárias para tal façanha.

Elon Musk
Caso você ainda não conheça o futuro homem mais rico do planeta, permita-me apresentá-lo:

Elon Musk nasceu na África do Sul, apanhava na escola por ser nerdão, lia muito livro de ficção científica, jogava e programava jogos.

Vendo que seu país de origem estava longe de ser um bom lugar para empreender, aproveitou a cidadania canadense da mãe para imigrar para o Canadá, mas já ambicionando uma posterior imigração para os EUA.

Depois de passar por vários subempregos no Canadá e entrar numa universidade de lá, conseguiu transferência para a Universidade da Pensilvânia/EUA, finalmente conseguindo acesso ao país que ele tanto queria ir.

Nos EUA, ganhou alguns milhares de dólares fundando empresas de tecnologia que nunca ouvimos falar (Zip2 e X.com). Com a grana que fez nessas empresas, tornou-se cofundador do PayPal, e se tornou multimilionário quando o PayPal foi vendido para o ebay.
O PayPal você conhece
Em vez de se conformar em ter centenas de milhões de dólares no bolso, nosso amigo sul-africano não parou quieto.

Ele criou a SpaceX, empresa de transporte espacial, e a Tesla, empresa de carros elétricos.

Ambas as empresas foram alvo de chacota por anos,  SpaceX por ser voltada ao transporte espacial e não conseguir mandar nada pro espaço, e a Tesla por ser montadora de carro elétrico que simplesmente não conseguia montar um carro elétrico.

A crise de credibilidade foi tão grande que, em certo momento, só o Elon Musk investia nas duas empresas, consumindo seu patrimônio pessoal e se colocando num risco real e palpável de passar de multimilionário para devedor em absoluto estado de insolvência.

SpaceX e Tesla trouxeram anos de puro desgosto
Felizmente deu tudo certo no final (para mais detalhes vá ler a biografia dele), e hoje a SpaceX é uma das empresas de transporte espacial mais respeitadas do mundo. Só para vocês terem uma ideia, ela consegue levar carga pro espaço, inclusive acoplar na ISS se necessário, por 1/3 do preço cobrado pela concorrência.

Mais do que isso, a SpaceX é uma das poucas empresas que detém a tecnologia necessária para lançar um foguete e trazê-lo de volta fazendo-o pousar da mesma forma e no mesmo lugar que decolou. Pelas barbas do profeta, vejam esse vídeo e me digam se isso não é impressionante:


Em janeiro/2016, uma aterrissagem dessas não deu certo pois uma das quatro pernas congelou e não abriu:


Mas enfim, o post é sobre carros elétricos, então vamos deixar a SpaceX de lado para falar sobre a Tesla.

Depois de passar anos prometendo muito e entregando nada, a Tesla finalmente desencantou e se tornou uma das montadoras mais relevantes no mercado de carros de luxo dos EUA.

O carro chefe da empresa é o Tesla Model S, esse aqui:

Tesla Model S
Tesla Model S - interior do veículo
A bateria da versão mais barata do Model S aguenta 390km, e a da versão mais cara aguenta 426km. Para carregar o carro de 0 a 100% demora aproximadamente 20 minutos. 

Não existe nada, absolutamente nada, que torne esse carro inferior aos demais existentes no mercado, muito pelo contrário, ele é o mais bem avaliado de sua categoria (luxury large cars) e também o campeão de vendas no ano de 2015:


O plano do Elon Musk, no entanto, não é ser fabricante de carro de luxo, e sim extinguir a indústria automobilística baseada em motor de combustão interna.

Isso exige carros elétricos a preços mais acessíveis, e o Model S está longe de poder ser considerado acessível, vez que tem um preço superior a US$ 100 mil.

Visando popularizar os carros elétricos, a Tesla fará em 31/03/2016 o anúncio ofícial do Model 3, com um preço de entrada de US$ 35.000,00.

Model 3, a ser lançado oficialmente em 31/03/2016
Se nunca mais gastar dinheiro com gasolina e troca de óleo não lhe parece bom o suficiente, a Tesla lhe oferece mais um atrativo: não gastar um centavo com energia elétrica.

Isso mesmo, meus confrades, cada um dos pontos vermelhos abaixo são postos de abastecimento da Tesla onde você pode carregar seu carro de graça (de graça mesmo, tudo que você tem que fazer é ter um Tesla):

Clique para ampliar. O objetivo de longo prazo é que todos esses postos sejam abastecidos por energia solar. Não por uma coincidência do destino, o Elon Musk também tem uma empresa cujo objetivo é vender/alugar painéis solares a preço popular.
Repare num detalhe sórdido: graças à rede de postos de abastecimentos acima, é possível dirigir pelos EUA da costa leste a oeste de graça, sem gastar um centavo de combustível. E não, não se trata de uma promoção, os postos são permanentes, e a utilização gratuita dos mesmos também é.

Um dos pontinhos vermelhos do mapa acima. Gasolina é o caralho, o futuro é carregar o carro igual se carrega um smartphone.
Ainda focado na popularização dos carros elétricos, em 2014 a Tesla liberou suas patentes, convidando quem quer que seja a copiar sua tecnologia para concorrer com ela.

Pode parecer uma decisão negocial meio doida, mas na verdade faz sentido: se a Tesla mantiver só pra ela todo o know-how de produção de carros elétricos de excelência, a indústria automobilística seguirá sendo majoritariamente baseada em combustível fóssil, e carros elétricos serão sempre apenas um "nicho".

Reparem que tudo isso que escrevi, apesar de ser muito atraente, até agora só é uma realidade para norte-americanos com disponibilidade para pagar mais de USD 100k num carro.

Model X com a falcon wing door. Para ver a maravilha que é essa porta, clique aqui
No entanto, a Tesla está claramente capinando o terreno para um mundo de carros elétricos, uma realidade que estará mais próxima (do norte-américano, pelo menos) com o lançamento do já mencionado Model 3 ao preço de US$ 35 mil.

Obra faraônica: a Tesla está construindo uma fábrica gigante de baterias no Texas, para aumentar sua produção de carros
Quem acompanha o blog sabe que não tenho carro e não pretendo ter tão cedo. Aliás, esse é um assunto que sempre me deixa entediado nas rodas de conversa.

Mesmo assim, desde que comecei a pesquisar sobre esse assunto, tenho pensado bastante em carros elétricos.

Acredito que o Elon Musk está discretamente arquitetando uma revolução no setor automobilístico, com um produto que ao menos nos EUA será tão atrativo, mas tão atrativo, que não fará sentido algum alguém desejar um carro movido a combustível fóssil, a não ser que a pessoa seja o tipo de saudosista que prefere uma máquina de escrever em vez de um notebook.

Em termos de tecnologia, chegaremos em breve num ponto em que não há nada que justifique uma indústria automobilística baseada em combustível fóssil.

No livre mercado acredito que o carro elétrico naturalmente mataria o antiquado carro de motor de combustão interna, mas o fato é que o centro dessa transição é os EUA, país cujo governo mantém uma relação promíscua com petrolíferas e montadoras de veículos, então as coisas não serão tão simples assim.

Aos interessados em conhecer melhor o Elon Musk, SpaceX e Tesla, a biografia ao qual me referi no meio deste post é essa:


Aquele abraço!
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