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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O surto de Marta

Quem acompanha o blog há mais tempo deve se lembrar que no fim do ano passado mudei para um novo apartamento, em um prédio localizado em uma avenida bastante movimentada.

Uma das primeiras coisas que reparei ao mudar para o novo cafofo é que eu estava em um dos pouquíssimos prédios da avenida que não tinha nenhuma propaganda na fachada.

É uma avenida bastante movimentada, então a maioria dos prédios aproveita a localização para instalar empenas e alugar a fachada para empresas de comunicação visual, gerando assim uma receita mensal de aluguel revertida em prol do condomínio. 

É disso que estou falando
Entrei em contato com o síndico do condomínio, perguntei por qual motivo o nosso prédio não tinha propaganda na fachada e ele não soube responder.

Entrei em contato com a administradora do condomínio, perguntei a mesma coisa e novamente fiquei sem resposta.

Percebi que o prédio não tinha uma propaganda na fachada (e receita mensal de aluguel, via de consequência) por pura inércia e falta de atitude dos envolvidos, e a partir daí resolvi tomar uma providência.

Entrei em contato com várias empresas de comunicação visual e pedi orçamento.

A maioria das empresas que contatei me ignorou, outras responderam que não trabalham com empenas e quatro manifestaram interesse e enviaram propostas. 

A melhor proposta veio de uma empresa que ofereceu R$ 2.300,00/mês pelo aluguel da fachada, além de arcar com as despesas de iluminação no período noturno.

Mostrei pro síndico essa possibilidade de gerar R$ 2,3 mil de receita sem fazer nada e ele finalmente resolveu se mexer, convocando uma assembleia-geral extraordinária para votar a contratação da empresa de comunicação visual.

Como o síndico se sentiu quando falei dos R$ 2,3 mil/mês que o condomínio poderia ganhar
A assembleia começou e o síndico explicou aos presentes que a propaganda na fachada geraria uma redução de estimados R$ 48 na taxa condominial de cada apartamento. Diante dessa perspectiva de pagar menos condomínio, todo mundo aprovou a instalação da propaganda na fachada.

Todo mundo menos Marta, a surtada do prédio

Estavam todos (menos Marta) bastante felizes com os cinquenta contos de economia que passariam a ter na taxa condominial, e o síndico revelou aos presentes que tudo aquilo era ideia do Madruga, o novo morador do prédio. Depois de falar isso o síndico puxou uma salva de palmas, e num momento constrangedor os presentes olharam pra mim e começaram a bater palmas. 

Obrigado, mas vocês são uns retardados por não terem pensado em botar propaganda na fachada antes
Em dezembro do ano passado a empena já estava instalada e uma propaganda estilo "Bradesco Seguros" passou a enfeitar a fachada do prédio, gerando uma redução de R$ 48,00 na taxa condominial, conforme prometido pelo síndico.

2017 chegou e logo no fim de janeiro tivemos uma nova assembleia-geral extraordinária para discutir qualquer assunto aleatório.

A assembleia fluía normalmente e eu estava quieto no meu canto, quando Marta levantou, interrompeu o assunto da pauta, apontou pra mim e disse "Vocês sabiam que esse menino aí tá botando no bolso R$ 3 mil por fora com esse contrato da fachada? Eu conversei com várias pessoas, várias, e todas me disseram que um aluguel de fachada aqui na região não sai por menos de R$ 5 mil! Isso tem que ser investigado. Tem que investigar esse menino aí, ele está botando no bolso dinheiro que deveria ir pro condomínio! Se isso não for investigado, eu vou na polícia. Na po-lí-ci-a!".

A primeira acusação de corrupção a gente nunca esquece
Os demais presentes aparentaram não levar muito a sério o que Marta disse. Eu pedi que a acusação de Marta fosse registrada na ata da assembleia e que a reunião prosseguisse normalmente.

No final da assembleia alguns condôminos vieram até mim e falaram pra eu não me preocupar com o que Marta diz. Disseram que ela é alcoólatra, bipolar, mora sozinha e de favor no apartamento que pertence ao pai, vota em assembleia com procuração e faz o que pode para encher o saco e atrapalhar todo mundo no prédio já há muitos anos.

Segundo a galera que veio falar comigo, todo mundo já foi vítima de algum surto da Marta algum dia, e eu deveria considerar aquilo uma mensagem de boas vindas dela para mim.

Ela é o tipo de pessoa que nunca conquistou nada na vida, ficou pra titia, afundou no alcoolismo, vive de dinheiro do pai e tem como única fonte de entretenimento criar confusão, especialmente em assembleias, onde ela é tomada por um complexo de pequeno poder por se sentir proprietária de um apartamentinho fuleiro que diga-se de passagem nem é dela.

Pra ser sincero não me importei muito com a acusação de Marta, mas também não quis deixar barato. Ali estava uma boa oportunidade de tirar dinheiro do bolso dela e botar no meu. Se você leu o post "Ganhando dinheiro com processos judiciais", já deve saber do que estou falando (no post em questão expliquei como é possível entrar com processo sem advogado e sem pagar taxas).

Martha, minha vingança vai doer no seu bolso
Menos de uma semana depois da famigerada assembleia eu já tinha entrado com o processo contra Marta pedindo indenização por danos morais por conta da acusação mentirosa. Juntei como prova um CD com o áudio da assembleia (as assembleias são gravadas), a ata, as várias solicitações de orçamento que fiz, além de botar como testemunha o síndico e a mulher da administração do condomínio. 

A audiência de conciliação foi em abril e Marta apareceu com um advogado do lado e visivelmente constrangida, olhando fixamente pra mesa de audiência sem fazer contato visual com ninguém.

A conciliadora fez um discurso robótico sobre as vantagens da conciliação e perguntou se Marta tinha alguma proposta de acordo a fazer. 

O advogado de Marta propôs que ela assinasse uma retratação pública/pedido de desculpa pela acusação feita contra mim, e em contrapartida eu deveria concordar com o arquivamento do processo.

Pedido de desculpa? Eu quero dinheiro, fera.
Propus que Marta fizesse a retratação pública e me pagasse R$ 3.000,00. Ele fez uma contraproposta de retratação pública + R$ 1.500,00. Eu concordei porque preferi resolver logo do que deixar o processo se eternizando na lerdeza judiciária. 

Marta assinou um papel pedindo desculpa pela acusação falsa dirigida contra mim e se comprometeu a pagar os R$ 1.500,00 em 15 dias, do contrário pagaria uma multa de 10% e o processo continuaria.

Pra fazer bom uso do pedido de desculpa de Marta, tirei dezenas de cópias do mesmo e fui enfiando por baixo da porta de todos os apartamentos. Mas retratação pública é o cacete, eu queria mesmo era os R$ 1,5 mil que ela se comprometeu a me pagar em 15 dias.

Só que ela não pagou. 

Os 15 dias passaram e nada do dinheiro entrar na minha conta.
É isso aí, amigos, Marta ligou o foda-se pro acordo feito no processo e frustrou minha expectativa de ver 1,5 mil entrando na minha conta. Só me restou continuar com o processo judicial cobrando os 1,5 mil + multa de 10% pelo calote. 

Pedi bloqueio de dinheiro nas contas bancárias de Marta, mas só foram bloqueados seis reais.

Pedi bloqueio de veículos em nome de Marta, mas ela não tem nenhum automóvel registrado em nome próprio.

Foi aí que me dei conta que, sendo ela uma desocupada surtada que vive às custas do papai, muito provavelmente eu jamais veria a cor do dinheiro que eu estava cobrando.

Vou sair de mãos vazias nessa história
Pedi pro oficial de justiça buscar qualquer coisa dentro do apartamento de Marta que eu pudesse pegar e vender depois, e o processo ficou vários meses parado sem motivo algum. 

Eis que, no começo de outubro, o síndico do prédio me liga dizendo que Marta se recusou a deixar o oficial de justiça entrar no apartamento dela, e o oficial voltou acompanhado de dois policiais militares e um chaveiro, forçando a entrada no apartamento contra a vontade dela.

Eu não sabia se ia receber meu dinheiro, mas só pela treta já tá valendo a pena
Como trabalho perto de casa, saí da empresa, fui literalmente correndo até o prédio em que moro, subi no andar de Marta e fiquei lá no corredor, ao lado de um PM.

Marta estava vermelha e bufando de ódio quando me avistou. "NO MEU APARTAMENTO ELE NÃO ENTRA! NÃO ENTRA!", gritou Martha para o PM que estava do meu lado. O PM ignorou solenemente o faniquito de Marta e continuou digitando qualquer coisa no próprio celular. 

Eu não queria entrar no apartamento de Marta. Só queria acompanhar a treta de perto e saber se eu ia sair dali com algo na mão ou no zero a zero.

O oficial de justiça saiu de dentro do apartamento e eu conversei com ele. Ele disse que a maioria das coisas que estavam dentro do apartamento dela não poderiam ser retiradas pois eram o básico do básico pra sobrevivência (geladeira, fogão, microondas, tv velha, essas coisas), mas que, se eu quisesse, poderia levar uma caixa com 12 garrafas de azeite extra-virgem 500 ml que ela tinha na cozinha e uma TV Smart Samsung 32" novinha, ainda dentro da caixa, que a safada escondeu na escada de incêndio nesse meio tempo em que o oficial de justiça saiu para depois retornar com a polícia e o chaveiro.

6 litros de Azeite? Acho que vou querer só a TV mesmo, amigo.
O oficial penhorou a Smart TV e entregou para o síndico do condomínio, que ficou responsável por guardá-la até segunda ordem do juiz.

Fui no processo dizer que eu queria a TV pra mim. Marta não disse mais nada, então o juiz autorizou que eu pegasse a televisão, considerou paga a dívida e arquivou o processo.

Minha mais nova Smart TV não vale nem R$ 1.200,00, então acho que o juiz foi um pouco afobado em considerar paga uma dívida que com multa e juros já passava de R$ 1.650,00, mas enfim...

Tirando o risco de ser esfaqueado no elevador por uma alcoólatra bipolar que não morre de amores pela minha pessoa, estou satisfeito com o desfecho da coisa toda: ganhei um pedido de desculpa não muito sincero e uma televisão.

Tem muita gente boa no prédio em que moro, mas tem muito retardado também. Em breve contarei pra vocês outras tretas condominiais.

Aquele abraço!

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O que fazer após a independência financeira?

Estava lendo um blog gringo de um cara que alcançou a independência financeira, parou de trabalhar e passou a viver de renda passiva. Vejam só como o sujeito descreveu a própria vida: 
Minha vida ainda é um pouco estruturada pois minha esposa tem um emprego e nós dividimos um carro, então eu tento deixá-la no trabalho e buscá-la. Eu penso em jogar golfe a maior parte do tempo. Eu joguei golfe cinco vezes na semana passada, mas geralmente jogo três ou quatro vezes por semana, tirando um dia de folga após cada partida. Em dias em que tiro folga (como hoje), eu sinto como se estivesse sem jogar há anos e fico pensando na próxima partida.
O cara alcançou meu maior objetivo, que é viver de renda passiva, e agora sua rotina consiste em levar a esposa pro trabalho e jogar golfe.

 Porra, blogueiro gringo! Fiquei entediado só de me imaginar numa vida assim.
Depois disso pensei melhor e vi que blogueiro gringo está fazendo a coisa certa. Basta reler as palavras dele para ver como ele está entusiasmado e feliz com o golfe, então quem sou eu para julgá-lo? O cara vive de renda passiva e gasta o tempo dele com o que o faz feliz, ponto final!  

Não existe certo ou errado para a felicidade, a não ser que sua felicidade consista em molestar crianças, violar sepulturas, assistir Encontro com Fátima Bernardes e outras atitudes doentias, ou em tomar decisões autodestrutivas que atentam contra a sua saúde mental, física e financeira.

Mas se eu não sinto prazer algum em jogar golfe compulsivamente tal qual o blogueiro gringo, o que a independência financeira representa para mim? Por que diabos acordo pensando em renda passiva e durmo pensando nela? 

Os meus motivos eu listo a seguir: 

1) Liberdade de não trabalhar

O maior motivador da minha busca pela independência financeira é não precisar mais trabalhar. É saber que eu estou livre de uma obrigação que ocupa manhã e tarde da maior parte das pessoas, e que posso dedicar meu tempo livre a ler livros, escrever no blog, buscar conhecimento, praticar exercícios físicos, me alimentar da melhor forma possível e fazer coisas improdutivas como ver séries, ouvir música e encher o saco das pessoas.

Há quem veja essa ideia de não trabalhar como algo anticapitalista, mas lembre-se que estou falando de parar de trabalhar por viver de renda passiva, ou seja, mais capitalista impossível.

Antes que alguém atire essa pedra, devo dizer que não sou infeliz no meu trabalho. Muito pelo contrário: tenho conforto e autonomia profissional bem acima da média e me dou bem com todo mundo que lido diariamente. Ainda assim, nada supera minha vontade de me ver livre da obrigação da trocar vida por dinheiro.

2) Mobilidade

Mobilidade é consequência da liberdade que a renda passiva pode proporcionar. Mobilidade pra mim significa estar onde eu quiser, quando eu quiser.

Seu primo está com vontade de conhecer Gramado? Poxa vida, ele não tem dinheiro nem tempo pra isso. Quem sabe um dia ele consiga, com o devido planejamento.

Você é independente financeiramente e acordou com vontade de ir para a Bulgária? Parabéns, você tem tempo e dinheiro pra isso.

Boa viagem.
Como não sou casado nem tenho filho, a única coisa que me prende geograficamente a determinado lugar é o trabalho, e parar de trabalhar significa mobilidade absoluta, podendo ir pra onde quiser sem precisar avisar pra ninguém ou me preocupar com quem deixei para trás.

3) Proximidade com certas pessoas

Tenho amigos e familiares espalhados pelo Brasil e em outros países. Raramente os vejo, pois quando você trabalha só consegue se deslocar grandes distâncias por um bom período de tempo durante as férias.

Com a independência financeira eu gostaria de visitar essas pessoas com uma frequência bem maior, e a liberdade de não trabalhar somado à mobilidade permitem isso.

4) Imigração permanente

Tá aí um assunto que eu nunca mencionei aqui no blog, mas que tenho sempre em mente. O Estado brasileiro é uma organização criminosa, e eu não necessariamente morro de amores por viver embaixo desse guarda-chuva.

Gostaria de viver em um país com menos insegurança, menos supremacia do funcionalismo público sobre a iniciativa privada e menos filhos da puta passando a rola na cara do cidadão comum todo santo dia. Não faço questão de viver num país perfeito, mas avacalhado como o Brasil aí já é demais.

Vocês devem ter visto nos jornais a Ministra que fez uma analogia ao trabalho escravo para pedir vencimentos de R$ 61 mil/mês. Parece ser um caso único de Ministra sem noção que falou besteira, mas a real é que esse tipo de deboche é diário, permanente, presente em todas as esferas dos três poderes e no Ministério Público, de forma que até o órgão que deveria lutar contra a festa do cachorro louco também mama na teta com auxílios e penduricalhos.

Gosto do Brasil, mas acho que prefiro visitar o país como turista quando der vontade em vez de ser um morador. Sem sombra de dúvida uma bela renda passiva contribui para um projeto imigração.

Vai sair do país? Poxa, fica mais.
Breve conclusão:

Meu sonho de independência financeira não inclui carro importado e uma mansão com 30 mulheres dançando na piscina ao som de Mc Rodolfinho.

É algo bem mais simples que isso, e consiste em parar de trabalhar, possivelmente sair do país de forma definitiva, estar onde eu quiser e quando eu quiser, estar mais próximo de boas companhias, aprender novos idiomas e conhecimentos práticos úteis, abandonar as refeições apressadas e os exercícios físicos com sono, enfim, usar meu tempo na terra com mais qualidade.

E aí, pessoal, quais são seus planos pós independência financeira?

Aquele abraço!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na barbearia gourmetizada

Moro relativamente perto de uma universidade e todo começo de semestre acontece a mesma coisa: calouros recém-aprovados no vestibular tomam as ruas pedindo grana nos sinais e vendendo rifas, tudo com o intuito de juntar dinheiro e promover festas.

Festinhas universitárias regadas a muita paquera e azaração
No começo do mês passado estava andando rumo ao trabalho e fui cercado por cinco calouras. Elas queriam me vender rifas e usar meu suado dinheiro para financiar suas festinhas espúrias em que alguém sempre termina hospitalizado pra tomar glicose para não entrar em coma alcoólico.

Ostentei meu poderio econômico ao pagar dois reais em uma rifa e as jovens saíram do meu caminho.

Cheguei no trabalho, parei para prestar atenção na rifa e vi que eu estava concorrendo a cinco prêmios diferentes, sendo o melhor deles uma bicicleta, e o pior deles um voucher para fazer cabelo e barba de graça numa barbearia "gourmetizada".

Enfiei a rifa nas profundezas de uma gaveta e esqueci desse assunto, até que no fim do mês passado recebi uma ligação de um estranho que me deu a boa notícia: o número da minha rifa foi sorteado e eu ganhei o tal voucher da barbearia.

Essa é a maior sorte que tive em um sorteio desde que ganhei um CD do É o Tchan no Havaí em 1998, então fiquei levemente satisfeito por ter sido contemplado, mesmo que com o pior dos prêmios disponíveis.

Em 1998 ganhei esse CD. Em 2017 ganhei corte de cabelo e barba. A sorte está crescendo exponencialmente e em 2036 ganharei R$ 50,00 na raspadinha da lotérica.
Pra fazer bom uso do voucher, deixei o cabelo e barba crescerem o máximo que pude, pra chegar na barbearia com aparência do Tom Hanks naquele filme "O Náufrago".

Como eu queria chegar na barbearia
Essa é uma daquelas barbearias "gourmetizadas" que toda cidade grande tem, criadas para serem "espaços exclusivos para homens", um espaço masculino onde você pode beber cerveja artesanal ao som de blues enquanto folheia uma playboy, tudo meticulosamente planejado pra fazer o cliente se sentir especial.

É um lugar muito diferente da barbearia que eu frequento, que é um muquifo onde o dono cobra tão barato pelo corte de cabelo que ele precisa dirigir Uber na madrugada para conseguir equilibrar as contas.

E lá fui eu, pela primeira vez, rumo à barbearia gourmetizada
Cheguei lá e fui recepcionado por um cara de suspensórios e barba de lenhador, um típico hipster que expressa sua individualidade se vestindo igual a todos os outros hipsters.

Falei que ganhei um voucher na rifa e os demais hipsters que trabalhavam no recinto vieram me cumprimentar com um falso entusiasmo de doer o coração.

"Primeira vez aqui, bróder?", "Quer uma gelada?", "Senta aí, bróder, a gente já vai te atender! Quer a senha do Wifi?".

Sentei num sofá e, na falta de coisa melhor pra fazer, fiquei observando o ambiente.



A primeira coisa que me chamou a atenção, além do ambiente vintage, foi uma placa com o preço dos serviços. Corte de cabelo com tesoura + barba totalizavam R$ 100,00. Isso mesmo, amigos, 100 joesleys para cortar cabelo e barba. Ainda bem que eu tinha o voucher.

Depois disso prestei atenção na conversa entre os clientes e os hipsters que cortavam seus cabelos: "Corolla é melhor que Civic", "o segredo da boa cerveja artesanal está na acidez do lúpulo", "eu trabalho numa plataforma e chefio uma equipe de 80 homens". Só papo de homem de sucesso. 

Chegou minha vez de ser atendido e o mesmo hipster que me recepcionou passou a cortar meu cabelo.

"Curtiu o espaço, bróder?"

"Sim, legal, só o preço assustou um pouco".

"Bróder, sobre o preço... aqui tem todo um conceito, você trabalhou o dia todo, quer um lugar pra relaxar, você chega aqui, senta no sofá, toma uma gelada, ouve uma música, recebe um tratamento especial, joga conversa fora, é toda uma experiência, não é um salão comum igual esses que tem por aí, aqui tem esse lance da experiência".

A tal da experiência que supostamente justifica o preço dos salões gourmetizados para homens

Concordei com o cabeleireiro hipster em nome da diplomacia, afinal estava ganhando corte de cabelo e barba de graça, então achei mais sensato usufruir do serviço sem ficar contrariando o camarada.

Cabelo cortado e barba feita, me preparei para ir embora e o hipster perguntou se eu ia voltar no mês que vem para cortar de novo. Eu respondi que ia voltar assim que ganhasse outro voucher, ele riu achando que era piada, eu me despedi e fui embora.

Adeus para sempre, barbearia gourmetizada
Fui andando pra casa pensando nesse lance da experiência.

Toda cidade grande já tem as suas barbearias gourmetizadas para homens, o que é um forte indício de que muita gente quer sim viver a tal da experiência que esses locais oferecem.

Paga-se o dobro, talvez o triplo do preço, pra sentar num sofá estilizado em um ambiente vintage, comprar uma cerveja a preço extorsivo e ficar lá se sentindo mais másculo enquanto relaxa com os miguxos do clube do bolinha.

Gourmetizaram a barbearia para atender à demanda de homens que precisam se sentir especiais até mesmo na hora de cortar o cabelo.

Amigo, é só cabelo! Você chega, corta, paga e vai embora. Que carência é essa que a galera está sentindo pra pagar mais caro pra transformar algo tão simples numa "experiência masculina"?

Isso me parece apenas mais uma armadilha pra pegar dinheiro de trouxa. Algo não muito diferente de pipoca gourmet, Uber Select e outras coisas inventadas para fazer a rapaziada gastar uma grana a mais em algo que eles atingiriam o mesmo resultado final se tivessem pago mais barato, tudo isso só pra se sentir diferenciado, especial, nobre, refinado ou qualquer outro sentimento que eu não sei explicar qual é.

Aquele abraço! 

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Crônicas da Matrix Financeira: Vanessa, a advogada

No post "Crônicas da Matrix Financeira: Vanessa, a assessora" eu contei para vocês sobre uma jovem moça que conseguiu um cargo comissionado em um órgão público que lhe pagava uma bela remuneração entre R$ 7 e R$ 8 mil mensais para cumprir uma carga horária de 35 horas semanais.

Com muita pressa em mostrar ao mundo seu novo poder aquisitivo, Vanessa mergulhou de cabeça na inflação do padrão de vida e saiu da casa dos pais para morar sozinha, comprou um carro 0 Km, comprou dezenas de roupas caras exibidas com orgulho nas redes sociais com a hashtag #lookdodia, frequentou restaurantes caros para compartilhar no Instagram foto dos pratos que pedia, enfim, toda aquela mediocridade e necessidade de auto-afirmação que todos nós já conhecemos muito bem. 

O revés veio quando o cara que nomeou Vanessa para o cargo comissionado morreu e foi substituído por um outro cara, que imediatamente exonerou todos os comissionados indicados pelo falecido, inclusive ela.

Como cargo comissionado não tem direito trabalhista e Vanessa em momento algum achou que fazer uma reserva de emergência seria uma boa ideia, ela ficou completamente desamparada quando foi para o olho da rua, tendo que voltar a morar com os pais, que assumiram todas as despesas da filha, inclusive as parcelas do carro, gasolina, seguro, vida social etc.

Esse foi um breve resumo do post "Vanessa, a assessora" apenas para refrescar a memória, e agora podemos finamente falar sobre o post de hoje: 

Crônicas da Matrix Financeira: Vanessa, a advogada

Assim que foi pro olho da rua e viu sua vida de "jovem de sucesso" desmoronar, Vanessa voltou a morar com os pais e assumiu o rótulo de concurseira. 

Como eu tive a oportunidade de mencionar no post "Crianças de 30 anos", estudar para concurso é uma atividade válida, mas o que não falta por aí é vagabundo se autodenominando concurseiro para esconder da sociedade o fato de que não faz nada de produtivo o dia todo.

Vanessa estudando para concursos
Vanessa não precisou fingir por muito tempo que era concurseira, pois logo no começo de 2017 conseguiu um trabalho como advogada em um escritório de advocacia gigante, desses que tem centenas de advogados e cuida de milhares de processos defendendo empresas de telefonia. 

Esse trabalho não era tão "glorioso" quanto o cargo comissionado que ela outrora ocupou, pois a remuneração era baixa (menos de R$ 1.800,00/mês) e a carga horária era alta (44 horas semanais), algo bastante comum no super prostituído mundo da advocacia.

Nem por isso Vanessa perdeu a pose, e recheou seu Facebook com selfies dentro do carro a caminho do trabalho, selfies no escritório pela manhã sempre com um copo da Starbucks estrategicamente posicionado para mostrar ao mundo como ela é cosmopolita.

Dentro e fora das redes sociais, a imagem que Vanessa queria passar era de advogada de sucesso. Enchia o peito para dizer que era chefe de uma equipe, postava fotos para mostrar que trabalhava até tarde da noite, postava foto presenteando a "equipe" com chocolate para mostrar que era uma boa chefe e por aí vai.

Já que a vida de servidora pública do alto escalão não deu certo, Vanessa assumiu a identidade de business woman cosmopolita
Quem conhece os bastidores sabe bem que a vida que Vanessa projetava para os outros era uma mentira.

Seu salário era pífio, suas horas extras aconteciam contra sua vontade, a "equipe" que ela comandava consistia em um estagiário, o cargo de "chefe" que ela usava para se referir a si própria era puro delírio, e sua situação financeira era de semi-dependência dos pais (ela bancava gasolina, seguro do carro e vida social, enquanto os pais bancavam moradia, alimentação, plano de saúde, financiamento do carro e basicamente todo o resto).

Ainda assim, o importante para Vanessa era manter a pose de "pessoa que tem tudo sob o controle" e de "profissional insubstituível", então publicamente ela agia como se adorasse aquilo tudo.

O trabalho de escravogada durou até agora, e no começo da semana passada ela foi dispensada do escritório em que trabalhava, por algum motivo que eu não sei qual é.

Para agravar a situação, Vanessa foi dispensada sem direito a nenhuma verba trabalhista pois ela estava contratada como advogada associada, que é uma figura que consegue ter menos direito trabalhista que um boliviano em regime de semi-escravidão.

Com a súbita dispensa e sem dinheiro no bolso, Vanessa confessou para a prima dela (vulgo minha namorada) que tem uma dívida de R$ 14 mil no cartão de crédito, que ela vinha refinanciado no crédito rotativo pagando sempre o mínimo todo santo mês, e que agora ela está pagando parcelado.

Como Vanessa não queria que seus pais descobrissem que essa dívida existe, ela pediu dinheiro emprestado à minha namorada para que conseguisse continuar pagando as parcelas.

A Madruguete quis minha opinião sobre o assunto e eu fiz uma longa exposição que pode ser resumida em "não empresta senão vai dar merda", e felizmente ela me escutou, então provavelmente Vanessa vai acabar jogando mais essa despesa nas costas dos pais.

O curioso é que, mesmo demitida e tendo acabado de mendigar dinheiro emprestado para pagar uma dívida de 14 mil joesleys, ontem mesmo Vanessa orgulhosamente compartilhou para a sua prima que estava comprando roupas e, quando descobriu que havia um desconto de 10% para compras acima de R$ 200,00, levou uma bermuda a mais, alcançou os R$ 200,00 e obteve o desconto em questão.

Parabéns pela economia, campeã.

Vou esperar o tempo passar e quanto tiver mais assunto escreverei a parte 3 dessa história. Pelo andar da carruagem, não vejo um futuro dos mais brilhantes para essa menina, rs.

Aquele abraço!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Sala 1: dois anos de vacância

Já contei essa história antes aqui no blog, então se você for leitor das antigas talvez se lembre.

Minha empresa alugava 3 salas comerciais, uma ao lado da outra, mais ou menos assim: 


Em junho de 2015, já com a crise no setor imobiliário comendo com gosto e placas de "aluga-se" brotando para todo o lado na paisagem urbana, a imobiliária que cuidava da sala 1 achou que seria uma boa ideia notificar minha empresa para que a gente desocupasse a sala em 30 dias, a não ser que concordássemos em reajustar o aluguel de R$ 800,00 para R$ 1.020,00.

Qual o critério para esse reajuste? Até hoje não sei. IGP-M certamente não foi. Acho que para reajustar a imobiliária utilizou o índice EAOIEFOQQ - "Eu Administro o Imóvel Então Faço o Que Quiser". 

Não concordamos com o reajuste e começamos a preparar a desocupação da sala 1, o que deu uma trabalheira do cão, especialmente com esse lance de mudar a porta de vidro de lugar.

Percebendo que a gente não ia ceder, a imobiliária se arrependeu de utilizar o índice EAOIEFOQQ e fez uma proposta de R$ 900,00/mês, dessa vez utilizando o índice EAOIEFMOMOQQ - "Eu Administro o Imóvel Então Faço Mais ou Menos o Que Quiser". 

Já estávamos com a desocupação em andamento então resolvemos ignorar essa nova proposta, até que a imobiliária ofereceu manter o aluguel da sala 1 sem nenhum reajuste, ou seja, pagaríamos os mesmos R$ 800,00/mês de aluguel que pagávamos antes, tudo com base no índice NDPADD - "Não Desocupa Pelo Amor de Deus".

Tarde demais. Ignoramos novamente e desocupamos a sala 1.
Adeus, sala 1
Passaram-se dois anos e a sala 1 jamais foi alugada novamente.

A sala fica permanentemente fechada e gerando prejuízo para a proprietária. Fazendo uma estimativa bem por alto mesmo, só de aluguel ela deixou de receber uns R$ 19 mil, e só de taxa condominial ela deve ter gasto mais de R$ 5 mil.



Há alguns meses atrás encontrei a proprietária da sala 1 em uma assembleia do prédio (eu voto com procuração dos proprietários das salas 2 e 3).

"Ain, Madruga, por que vocês desocuparam minha sala?", disse a proprietária.

Expliquei que desocupamos em razão do reajuste que a imobiliária tentou impor, completamente absurdo para aquele momento em que a vacância no prédio estava enorme e tinha neguinho alugando sala até por R$ 650,00/mês.

"Que reajuste?!", disse a proprietária da sala 1 com cara de susto.
A proprietária da sala 1 jurou pelas barbas do profeta que não sabia que a imobiliária tentou reajustar nosso aluguel, que não autorizou nada disso, que ela deveria ter sido consultada pela imobiliária, que nunca em sã consciência ela arriscaria perder um locatário de tantos anos dessa forma.

Ela estava realmente indignada, falando que ia processar a imobiliária que administra a sala 1, e de certa forma eu compreendo a indignação, já que a imobiliária fez uma tentativa desastrada de reajuste, perdeu o locatário e gerou prejuízo para a proprietária.

Mas que se dane, são águas passadas.


A novidade é que nessa semana a proprietária da sala 1 apareceu na minha empresa acompanhada de um advogado, e mais uma vez falou que pretende processar a imobiliária por ter dado causa ao fim da locação.

O advogado que acompanhava a proprietária explicou que pretende cobrar judicialmente da imobiliária os lucros cessantes, ou seja, quer que a justiça condene a imobiliária a pagar o valor correspondente ao período em que o imóvel ficou vazio quando poderia ter permanecido alugado para a minha empresa.

Enquanto escutava o advogado falando, uma pergunta pipocava em minha mente: E o que diabos eu tenho a ver com isso?
Foi aí que o advogado da proprietária perguntou se eu poderia colaborar com o processo, testemunhando a favor da proprietária, e repassando pra ele a notificação que a imobiliária nos enviou mandando desocupar caso não concordássemos com o reajuste.

Se tem algo que eu aprendi nessa vida é que não ganho absolutamente nada me metendo na briga dos outros. Aquela briga era entre a proprietária da sala 1 e a imobiliária que ela irresponsavelmente escolheu para administrar o imóvel dela, eu não tinha absolutamente nada a ver com aquilo, então falei pro advogado que preferia não me envolver.

O advogado fez cara de ânus e disse que ia me colocar como testemunha no processo de qualquer forma, e eu seria obrigado a comparecer em audiência e falar a verdade sob pena de cometer crime de falso testemunho blá blá blá.

Falei pro advogado pra ele fazer o que quiser, levantei, abri a porta e pedi que eles se retirassem. Ficou um climão desagradável no ar, eles saíram sem dizer nada e foram embora.

Depois que eles saíram, fiquei pensando na sucessão de merdas que nos levou àquele momento:

1) Certo dia alguém dentro da imobiliária acordou se achando o todo poderoso.
2) Isso fez minha empresa subitamente desocupar 1/3 do espaço físico.
3) Isso fez a proprietária do imóvel tomar um prejuízo de mais de vinte mil joesleys.
4) Isso fez a imobiliária não só perder uma cliente, como também ficar na mira de um processo judicial que eu sinceramente não sei quem vai ganhar (nem me importo).

Só consigo ver dois ganhadores nessa história: o advogado da proprietária da sala 1, que vai ganhar dinheiro pra atacar a imobiliária, e o advogado da imobiliária, que vai ganhar dinheiro para defender.

Nessas horas a gente entende por que o Dr. Honorários tinha aportes tão bons
Não sei qual lição tirar disso. A lição mais escancarada seria: escolha bem a imobiliária, e sempre fiscalize o trabalho dela por mais que você ache que escolheu a melhor imobiliária do universo.

Aquele abraço!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Crianças de 30 anos

Não tenho filhos nem planos de curto ou médio prazo de botar uma criança no mundo, mas, após ler um post do colega Investir para Viver, ando me perguntando o que eu tenho que fazer, caso um dia eu vire pai, para educar Madruga Júnior de uma forma que ele não se transforme num completo paspalho, tal qual algumas pessoas que eu conheço. 

Refiro-me especificamente a alguns ex-colegas de universidade que estão com 30 anos de idade e nunca fizeram absolutamente nada de útil na vida desde que terminaram a graduação, se encaixando já há muitos anos no conceito de NEET.

Exemplos: 

Gabriel tem 31 anos e, após concluir a graduação, nunca correu atrás de nenhum emprego, estando até a presente data a depender financeiramente dos pais, que bancam a habitação, o carro, as viagens, a vida social e as extravagâncias do filhinho (PlayStation 4, aeromodelos, smart-relógio etc).

Renato concluiu a graduação sem conseguir seu lugar ao sol no mercado de trabalho. Ele passou anos a fio sem trabalhar, sempre me dizendo que estava estudando para concursos (estudar para concurso é uma atividade legítima, mas também é a desculpa oficial de muita gente desocupada). Passaram-se oito anos desde a formatura e pelo que sei Renato nunca chegou nem perto de uma aprovação. 

Esses foram apenas dois exemplos, mas eu tô pra dizer pra vocês que conheço pelo menos mais umas 5 pessoas que passaram dos 30 anos e, por mais que tentem esconder isso, não fazem absolutamente nada na vida a não ser sugar o dinheiro dos progenitores.

E olha que estou falando apenas de NEETs! Se for contar também a galera com mais de 30 que trabalha mas ainda depende de ajuda dos pais pra se sustentar, esse número aumenta vertiginosamente.  

Bebês gigantes
Por mais que Madruga Júnior ainda não exista, e pra ser sincero eu nem decidi ainda se quero ter filhos, não consigo deixar de me perguntar o que eu tenho que fazer para impedir que minha cria se torne uma dessas crianças de 30 anos que eu conheço, que simplesmente não se deram conta que a idade chegou e que viver da mesma forma que viviam quando tinham 12 anos é um constrangimento.

Tô longe de ser um "case de sucesso" do sujeito de 30 anos que está com a vida resolvida, mas pelo menos posso me orgulhar de não parasitar ninguém, cumprir com todas as minhas obrigações e ainda sobrar uma bufunfa pra aportar no fim do mês. 

Fica a pergunta no ar: como criar adequadamente um filho?

Não tenho experiência nenhuma com criação de filho, mas existem algumas coisas que o meu pai fez comigo e com meu irmão que definitivamente considero como acertos:

1) Dar a real desde cedo

Desde que eu era bem novo e não tinha nenhuma preocupação na vida, meu pai sempre soltava comentários do tipo "não tenho dinheiro pra pagar universidade particular, você vai ter que passar em pública se quiser um bom emprego" ou "um dia você vai ter que se virar sozinho, não vai ter ninguém pra pagar suas contas, fazer comida, lavar roupa". 

Esse papo em nada atrapalhou minha infância e plantou na minha cabeça a ideia de que um dia eu iria ter que me virar, e se não me virasse estaria ferrado. 

Acredito que isso me deu um bom senso de responsabilidade, coisa que as crianças de 30 anos não têm até hoje, e contribuiu pra formação do caráter. 

2) Palmadas

As punições disciplinares variavam de acordo com a gravidade do ato cometido. Atos de baixa gravidade eram punidos com esporro, de média gravidade com castigo, e de alta gravidade com a boa e velha agressão física.

Punição final
Acredito que palmada é instrumento pedagógico e deve sim ser usada em casos graves. Não consigo imaginar uma criança xingando o pai ou a mãe e sendo punido com "vai ficar sem internet!!". Esse tipo de desproporcionalidade entre ofensa e punição cria crianças de 30 anos. 

3) Carro de presente?!

Tendo crescido num ambiente de classe média, lembro-me de uma galera mais velha festejando os 18 anos. Em algum momento a festa era interrompida para dar o presente pro aniversariante. Iam todos para o meio da rua e...

Tcharam!!!!!
Lá estava um carro, algumas vezes com essa faixa escrota, outras não. 

Acredito que, se você dá pro seu filho um trambolho que custa milhares de reais, você acaba dando pra ele também um belo exemplo de como o mundo não funciona. 

Lá está o moleque, com apenas 18 anos de idade, no conforto de um passivo ambulante que ele não teria a menor condição de pagar sozinho, com gasolina e manutenção que ele provavelmente também não banca.

Que lição isso passa para um moleque ainda em formação? Pra mim isso só serve para gravar no subconsciente da pessoa que talvez a vida não seja tão difícil assim, além de colocá-la numa enorme zona de conforto que não deveria existir nessa fase de recém-adquirida maioridade.

Sei que dar um carro de presente não significa que você vai transformar seu filho numa criança de 30 anos, o processo educacional leva décadas e é muito mais complexo que isso, mas também não consigo enxergar como uma simples coincidência o fato de que os 7 NEETs que me vieram em mente enquanto eu escrevo esse post ganharam carro de presente dos pais, rs.

Como eu fiz questão de frisar desde o começo do post, eu não tenho experiência alguma com criação de filho. O que eu quis compartilhar no post de hoje são coisas que meu pai botou em prática e acho que de uma forma ou de outra me ajudaram, e que pretendo pôr em prática também caso Madruga Júnior venha ao mundo.

E vocês, quantos NEETs conhecem? Têm alguma boa dica de criação de filhos para compartilhar? Alguma coisa que ajudou a formar o seu caráter?

Aquele abraço!

domingo, 11 de junho de 2017

Seu Madruga no Twitter!

Fala, galera, tudo bem?

Criei a conta @madrugainvest no Twitter, onde pretendo divulgar os posts do blog e comentar sobre banalidades cotidianas, filmes, livros, paqueras e muita diversão.

Sei que os tempos áureos dessa rede social já passaram, mas se por algum acaso você ainda tem conta no Twitter em pleno ano de 2017, me dá uma força:


PS1: Desativei os comentários do post de hoje pois escrevi só para divulgar o meu twitter mesmo.

PS2: Post novo aqui no blog acredito que na quinta-feira que vem.

Abraço!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Presentear e ser presenteado

Quanto mais penso no assunto, menos me agrada a convenção social de dar e receber presentes em datas comemorativas (aniversário, natal etc), ou em eventos do tipo amigo oculto (amigo secreto, amigo x, ou seja lá qual nome é usado aí no lugar em que você vive).

O que era um momento mágico durante a infância veio se transformando em um fardo na vida adulta, e não somente por conta do dinheiro que se gasta.

O principal motivo da minha implicância é que não vejo correlação entre comprar presente e demonstrar estima e consideração à pessoa presenteada. Claro que eu sei que quem me presenteia está na melhor das intenções, mas não sinto que era necessário comprar alguma coisa para demonstrar isso.

Se uma pessoa que você gosta está fazendo aniversário, por exemplo, você deve lembrar da data e desejar com sinceridade que ela seja feliz e que viva por muitos anos. Por algum motivo obscuro e para a alegria dos lojistas, convencionou-se que isso não é o suficiente, e que você deve também ir no Shopping para comprar algum troço para essa pessoa.
"Te considero pra caramba, toma aqui um sapatênis" (!?)
Tenho dificuldade em entender como a monetização da relação entre o presenteante e o presenteado em datas pré-estabelecidas contribui de alguma forma para o fortalecimento dos laços entre essas pessoas.

E acreditem se quiser, também não gosto de ganhar presente.

Não gosto pois nesse mundo não há ninguém mais qualificado que eu para saber o que eu quero comprar ou não. 

Assim sendo, se eu prezo por uma pessoa, não quero que ela perca tempo e dinheiro indo comprar alguma coisa pra mim, até porque existe uma possibilidade bem grande de acabar comprando algo que eu já tenho ou que não faria a menor questão de ter.

"Ah, Madruga, mas pelo menos você ganha o presente de graça, então não reclama!"

Ganho mesmo? Será?

A convenção social de presentear outra pessoa em datas comemorativas vem com um dever de reciprocidade embutido: se Catiúcia te deu um sapatênis de R$ 118,50 no seu aniversário, você fica com um dever moral de presenteá-la em valor semelhante quando o dia dela chegar.

A não ser que Catiúcia morra ou você ligue o foda-se pra convenção social em algum momento, o que você ganha de presente acaba se transformando em um dever/compromisso futuro de gastar dinheiro presenteado a pessoa que te presenteou.

No fim das contas, com esse lance de trocar presentes você acaba ficando no zero a zero, ou talvez pior que isso, pois existe sempre um risco de você ganhar um presente que não te agrada, ou de dar um presente que não agradou a pessoa.

Nessas duas hipóteses há perda de valor e desperdício de dinheiro, pois você gastou R$ 150 e a pessoa sente que aquilo não vale nem R$ 50, ou a pessoa gastou R$ 100 e você já se imagina vendendo aquilo na OLX por R$ 25. 

"Nossa. Obrigada. Adorei."
"Madruga, pra evitar desgosto eu digo pra pessoa exatamente o que eu quero ganhar de presente e vice-versa" 

De fato essa é uma boa estratégia para evitar ganhar presente ruim ou inútil, mas analisando friamente, isso nada mais é do que vocês emprestarem dinheiro um para o outro. No seu dia você quer X e ela banca, no dia dela ela quer Y e você banca.

Existe solução?

Pra evitar todo tipo de rusga que pode decorrer das situações narradas neste post, convencionei com as pessoas próximas um pacto em que ninguém me dá presente e eu não presenteio ninguém.

Devo dizer que tá todo mundo bem satisfeito com o pacto em questão, e ninguém gosta menos um do outro por conta disso. Pelo contrário, cada um tirou dos ombros o peso de gastar dinheiro, de perder tempo caçando presente e de sentir dúvida se o presente agradará ou não.

Claro que isso só se aplica às pessoas próximas com quem tive intimidade pra tratar desse assunto. Ainda estou sujeito às convenções sociais de presentear pessoas não tão próximas, o que diga-se de passagem acontece com mais frequência do que eu gostaria.

E vocês, pessoal, o que pensam disso? Como lidam com esse tipo de coisa? 

Aquele abraço!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Independência financeira "extrema"

Fala, galera, como estão todos?

Sumi um pouco do blog pois vim visitar minha mãe aqui nos confins do Brasil e não trouxe meu Notebook.

Sem nada melhor pra fazer aqui na casa da minha querida mamãe, resolvi ler o livro do blogueiro gringo Early Retirement Extreme.

Fiquei tão impressionado com o livro que resolvi escrever o post de hoje pelo celular mesmo.

Vou chamar o blogueiro em questão de Jacob daqui pra frente, pois ficar repetindo "Early Retirement Extreme" ao longo do post vai me cansar os dedos.

Jacob mora nos EUA e alcançou a independência financeira aos 30 anos de idade, tendo parado de trabalhar para viver de renda aos 33.

Para alcançar essa meta, ele seguiu a fórmula que todos nós já conhecemos muito bem: criou uma renda passiva que supera com segurança suas despesas.

O que me impressionou no Jacob é que, para criar esse "gap" entre renda passiva e despesas, ele reduziu pra caralho as despesas, num nível que podemos chamar de extremo (talvez isso explique o nome do blog dele - Early Retirement Extreme).

Vejam só: Jacob mora dentro de um trailer de vinte e poucos metros quadrados, não tem carro, não tem televisão, fabrica os próprios itens de higiene pessoal e limpeza, tenta conservar as mesmas roupas por mais de uma década e planta muito do que come.

Ele defende no livro que é possível viver bem com 1/3 ou 1/4 do que uma pessoa de classe média gasta sem passar necessidades/viver na pobreza.

Considerando que um custo de vida baixo é aliado da aposentadoria precoce, pergunto: o que você está disposto a fazer para alcançar sua independência financeira mais rápido?

O estilo de vida do Jacob me parece bem extremo e até mesmo impraticável (quem arrisca morar num trailer aqui no Brasil?), então a conclusão que cheguei é que não conseguiria ser feliz ou me sentir seguro levando a vida que ele leva.

Por mais que eu não compreenda como é possível ser feliz da forma que ele vive, sei bem que é possível ser feliz com pouca coisa.

Não tenho carro, moro num apartamento pequeno e tenho uma despesa mensal bem baixa. Estou longe de ser extremo como o Jacob, e acho que nem desejo ser, mas sou extremo o suficiente aos olhos de muita gente.

Eu vivo feliz dessa forma, acreditem se quiser, mas é claro que recebo olhares tortos de gente que acredita que, para eu "ajeitar minha vida", deveria liquidar meus bens, comprar um HB20 e alugar um apê de 3 quartos.

É que, nessa faixa etária que me encontro (+- 30 anos), tá todo mundo deslumbrado com o próprio poder aquisitivo e seguindo fielmente o script da inflação do padrão de vida.

Então por mais que eu não me identifique com o extremismo do Jacob, consegui me identificar com ele até certo ponto, e o livro me instigou a me perguntar o que mais posso fazer para reduzir minhas despesas.

E vocês, colegas, costumam pensar sobre isso?

O que acham da ideia de viver uma vida simples, fora do padrão de ostentação que faz a alegria dos vendedores de carros, imóveis e roupas caras?
O que vocês estão dispostos a abrir mão para alcançar a IF mais rápido?

Estão satisfeitos com suas despesas mensais?

Viver uma vida simples seria um sacrifício para vocês?

Aquele abraço!


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Secretárias bizarras do Seu Madruga

Fala galera, tudo bem?

Pra quem ainda não sabe, tenho uma empresa cujo extenso quadro de empregados consiste em uma secretária.

Essa estrutura já foi maior em determinados momentos (já tivemos auxiliar administrativo, office boy, estagiário...), mas no fim das contas percebemos que uma secretária é o suficiente, o resto a gente se vira.

E porque uma secretária é tão imprescindível assim?

Para recepcionar clientes, atender telefone, preparar e servir café, manter o ambiente organizado, repor material de escritório, agendar reuniões, digitalizar ou fotocopiar documentos, enfim, esse tipo de coisa, tudo muito simples de se fazer.

Apesar de ser um trabalho tranquilo de se realizar e de pagarmos ligeiramente acima do valor de mercado, ao longo dos anos comemos o pão que o capiroto amassou para encontrar uma secretária decente

E o post de hoje é justamente sobre isso: as secretárias bizarras que passaram pela empresa do Seu Madruga.


Vamos a elas:

1) Gabriela, a estudante

Gabriela era uma simpática menina do interior que veio tentar a sorte na cidade grande.

Depois de alguns meses trabalhando como secretária na minha empresa, ela nos contou que iria começar a fazer um curso de graduação à noite, pois foi aprovada no vestibular do curso de administração em alguma uniesquina obscura, mas que isso em nada ia atrapalhar o trabalho dela na empresa.

Parabéns pela conquista, Gabriela
Meu sócio mais velho ficou bem comovido com esse esforço da menina em trabalhar e se qualificar para melhorar de vida, e propôs que nossa empresa desse uma ajuda de custo de R$ 500,00/mês para ela, contanto que ela conseguisse conciliar trabalho e faculdade e tirasse notas boas.

Nenhum dos sócios (eu, inclusive) concordou com essa ideia, então meu sócio mais velho decidiu que daria essa ajuda de custo por conta própria e com dinheiro vindo do bolso dele. Ele realmente estava determinado a ajudar a secretária, pois ele veio do mesmíssimo cafofo no interior que ela e queria ajudar a conterrânea.

Depois de um semestre pagando a tal ajuda de custo, meu sócio mais velho cobrou da secretária o desempenho dela no primeiro período de faculdade, para saber se ela estava cumprindo o compromisso de tirar boas notas.

Após perceber um comportamento furtivo da Gabriela em falar sobre esse assunto, meu sócio mais velho ficou desconfiado e foi à uniesquina para averiguar se ela realmente estava fazendo o tal curso de graduação em administração.

Como vocês já devem imaginar, a menina não estava cursando porcaria nenhuma. Ela até chegou a se matricular, mas depois disso não deu continuidade, nunca tendo pisado na sala de aula ou pago mensalidade.

A ajuda de custo paga por fora pelo meu sócio não estava sendo revertida em estudos, mas sim em baladinhas sertanejas nos fins de semana.

Como reagi quando soube
E o pior de tudo é que, todo dia às 18 horas, Gabriela ia embora e a gente se despedia desejando uma boa aula, acreditando que ela estava indo estudar após um longo dia de trabalho.

Depois de um vacilo desses não foi possível mantê-la em nossa empresa, então demitimos ela sem justa causa.

2) Brenda, a secretária relâmpago

Depois de demitir Gabriela, fizemos um contrato de experiência com Brenda.

Brenda começou a trabalhar numa segunda-feira e, na quarta-feira da mesma semana, apareceu na empresa com o dedo indicador de uma das mãos fraturado e um atestado médico afastando-a do trabalho por um mês. UM MÊS.
 
Pode isso, Arnaldo? Eu não faltei ao trabalho nem quando estava com um braço inteiro imobilizado, e a menina quer ficar fora um mês por causa de um dedo?
Não lembro bem os pormenores dessa situação, só sei que mandamos ela catar coquinhos cuidar do dedo fraturado bem longe de nossas vidas e nunca mais a vimos.

3) Scheila e o marido invasor

Não vou entrar em detalhes sobre Scheila pois já escrevi um post contando tudo o que aconteceu. Mas resumindo: num domingo aleatório fui na minha empresa e flagrei o marido dela furtando nosso material de escritório.

4) Ivone, a mamãe

Ivone tinha uns 25 anos de idade, era casada e tinha um filho bebê.

Ela disse na entrevista de emprego que o filho bebê não seria um problema para a empresa, pois a avó da criança morava ao lado e adorava cuidar dela.

Votei contra a contratação de Ivone por conta do filho bebê, mas meus sócios decidiram contratá-la, acreditando que a vovó-babá cuidaria da criança e que Ivone se sentiria compelida a trabalhar direito, afinal tinha um filho para sustentar.


Ivone fez tudo dentro do esperado durante o contrato de experiência, então efetivamos a contratação.

Foi só contratar de forma definitiva que veio a primeira falta por motivo de "filho passou mal e tive que levar no hospital". 

Depois disso, faltas por motivos de "filho doente" começaram a se tornar recorrentes, primeiro uma vez a cada duas semanas, depois semanalmente, depois vários dias seguidos numa mesma semana. 

Eu avisei que ia dar merda, não avisei?
Já estávamos decididos a demiti-la quando, mais uma vez, Ivone faltou ao trabalho sob o pretexto de que o filho estava passando muito mal e ela teria que ficar em casa cuidando dele.

Quando a secretária falta, sou eu quem puxa e atende todos os telefonemas. Foi aí que recebi a seguinte ligação:

Pessoa desconhecida: Alô, bom dia. Aí é da empresa X?
Madruga:  Sim. 
Pessoa desconhecida: Poderia me informar se a Ivone trabalha aí?
Madruga: Quem está falando?
Pessoa desconhecida: Aqui é da loja Y. A Ivone está aqui fazendo um crediário, e preciso confirmar se ela realmente trabalha aí, pra completar o cadastro dela. 
Madruga: A Ivone tá aí?
Pessoa desconhecida: Sim.
Madruga: Fazendo compras?
Pessoa desconhecida: Sim. 
Madruga: Ela não trabalha aqui não.

Vejam só que safada, faltando sob o pretexto de que o filho estava doente, mas lá estava ela comprando tralhas em 48x no crediário. 

Mais uma.
Depois de vários perrengues, felizmente conseguimos encontrar uma excelente secretária. Ela é muito profissional, comprometida com o trabalho e veste a camisa da empresa. Ela é provavelmente bem mais dedicada à empresa do que eu seria se estivesse no lugar dela.

Mas enfim, o post de hoje foi totalmente despretensioso, só para compartilhar essa pequena experiência de empreendedorismo da vida real, a se contrapor um pouco ao empreendedorismo que vendem na televisão onde tudo funciona bem e dá maravilhosamente certo.

Aquele abraço!

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