quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Privilegiados e seus discursos

Durante algum tempo hospedei gringos via Hospitality Club.

Hospedar esse monte de gringos só ampliou minha percepção de que em alguns países do mundo a vida é simplesmente muito fácil, ao ponto de você não precisar ir muito além da mediocridade para conseguir viver com conforto.

É por isso que muita gente de país desenvolvido se dá ao luxo de, após terminar um curso universitário, tirar uns meses sabáticos para viajar por aí. Eles sabem que a vida é tranquila e que mesmo depois de um ano coçando o saco no exterior, não terão dificuldade em arranjar emprego ao retornar aos seus respectivos países.

Também hospedei muito gringo que simplesmente largou o emprego para passar seis meses ajudando indígenas subnutridos no Peru, ensinando inglês em favela do Rio de Janeiro, se drogando na Tailândia e coisas do gênero. Ora, para eles não há o que se preocupar, depois de ajudar os oprimidos ou festejar à vontade sempre há a possibilidade de retornar para o país desenvolvido em que nasceram e viver com dignidade sem muito esforço.

Onde quero chegar com isso? À conclusão de que é muito fácil pagar de "o cara que largou tudo para fazer o que realmente gosta" quando você sabe que pode sempre voltar pro seu país de primeiro mundo onde a vida é fácil e qualquer retardado que por coincidência nasceu ali não precisará se preocupar muito com emprego, moradia, saúde, segurança etc.

A mesma lógica se aplica ao brasileiro que tem as extravagâncias bancadas por uma família abastada, a exemplo de uma menina que tenho no meu Facebook, cujo pai é sócio em uma construtora das grandes. Ela fez cinema na UFSC e hoje em dia não faz nada na vida além de ter um instagram sobre moda feminina com 1500 seguidores enquanto mora no Leblon, onde o aluguel de um imóvel custa mais caro que a venda das minhas córneas e rins no mercado negro.

Antes que esse post comece a parecer uma manifestação de repúdio contra pessoas privilegiadas, preciso esclarecer que esse não é o caso: não acho que uma pessoa deveria se envergonhar por nascer com algum privilégio, e queria eu ter nascido num país onde a vida é fácil, ou ao menos que minha família limpasse a bunda com nota de R$ 100. O problema é quando você nasce em berço de ouro e fica postando coisa do tipo "viaje. sem desculpas. apenas viaje.", como se "pagar as próprias contas", ter medo de perder o emprego e "formar um patrimônio pra não ser um fudido na vida" fossem desculpinhas fajutas para não realizar o iluminado ato de viver a vida.

O objetivo do post é alertar você que é tupiniquim e não nasceu em família rica: muito cuidado com papos do tipo "é só fazer o que você ama que vai dar tudo certo" e notícias do gênero "Casal dinamarquês larga emprego estável pra vender couve-flor orgânico em Teixeira de Freitas". Esse discurso nasceu em países onde as pessoas têm para onde correr caso tudo dê errado, e é propagado aqui no Brasil como se fosse igualmente aplicável. Abre o olho, meu amigo, tratam-se de realidades distintas, e falhar no Brasil tem consequências muito mais drásticas do que falhar na Escandinávia, por exemplo.

Não estou insinuando que você deve abandonar seus sonhos, apenas te alertando que você tem que ter um milhão de vezes mais cautela e preocupação com formação do patrimônio financeiro do que a turminha do "faça o que você ama que tudo vai dar certo" sugere, até porque seguir o discurso em questão nem de longe significa garantia de sucesso.

Abraço!

29 comentários:

  1. Excelente texto Madruga.
    E a ideia de trazer mulheres pro abate no seu AP foi genial.
    Abraço,

    Anon Pé de Cana.

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    1. Obrigado, Pé de Cana. A ideia não foi planejada desde o princípio, percebi que ali havia uma oportunidade e tirei proveito (ou pelo menos tentei tirar).

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  2. Eu odeio este discurso, e sou cercado não só de abastados, mas de fodidos que pensam assim. A vida é uma guerra diária. Acho que isso é uma mistura de baby boomers abastados com a filosofia hippie (como o marxismo se infiltrou na sociedade americana).
    Essa filosofia é uma verdadeira lástima que só deixa a classe média mais pobre e explorada. Jovens estão começando a trabalhar só depois da faculdade ou até depois, se enchendo de cursos e quando se vêem sem experiência partem pra única opção: dar aula ou fazer concurso, sempre sugando recursos dos pais.
    Alguém sempre está pagando a vida desses vagabundos. Não existe um que pense assim quando falta grana pra um remédio ou o conforto de um ar condicionado. É muito legal ser faxineiro num cruzeiro. Quero ver não ter outra alternativa além de ser faxineiro a vida toda.

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    1. Nossa geração foi criada com a ideia de que o céu é o limite. Um dia a realidade chega dando um tapa na cara e quando isso acontece o tombo é grande.

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  3. Madruga, quem acreditar em conversinha fiada da imprensa descolada e moderna vai tomar no c... com areia.Sem dinheiro não dá para realizar sonhos, sem grana não se come bu..., não se tem conforto, não há nada.

    Muitos brasileiros viajam na maionese da realidade gringa e se ferram de verde e amarelo.

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  4. Quem pode realmente tirar uma ano sabático Ok.
    Quem não pode, resta muitas vezes apenas tirar um ano sorumbático.
    Fazer o que gosta eis uma questão ampla. Quantas pessoas realmente gostam do que fazem em seus respectivos trabalhos?
    Quando se está infeliz com sua profissão ou vida o que fazer? Jogar tudo pro alto? Quando isso é realmente viável?
    Esse ano vem sendo pra mim de muita reflexão sobre quase tudo em minha vida. Fiz uma escolha profissional ruim financeiramente no passado (trabalhar em família) depois disso venho aportando o máximo a pouco mais de 5 anos para alcançar minha independência ou semi independência.
    Estou numa condição financeira razoável mais o tempo passa e a vida passa junto.
    Meu salário não é grande coisa, não tenho perspectivas de aumento.
    Sou formado em Adm, não continuei os estudos (especializações etc) simplesmente porque não valia a pena para a região onde moro e o local onde trabalho.
    Enfim estou num momento de estagnação quase total, não sei até quando terei paciência para ir vivendo desse jeito.
    Estou pensando em empreender para pelo menos ver se consigo melhorar de uma vez minha vida financeira.
    E para quem realmente mergulhou no mundo dos estudos porque gosta e se sente realizado profissional e pessoalmente com isso, meus sinceros parabéns.

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    1. Eu tento alcançar a independência financeira por meio do empreendedorismo, no momento tá tudo fluindo na medida do possível, mas me preocupa a possibilidade de estagnar, falir ou sei lá mais o que pode acontecer no meio do caminho.

      Se algum dia você encontrar a solução para as suas dúvidas, me fala, pois talvez seja útil para mim também.

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  5. Adorei os temas da hospitalidade gringa e de viver a vida
    Acho que vc deve ter passado por momentos estranhos e bizarros, nos conte mais sobre essa experiencia

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    1. Teve um casal de alemães que veio com um bebê de três anos. Não sei o que passou na minha cabeça em aceitar hospedar gente com bebê. A criança tava meio doente, cagou fora do vaso, passou mão suja de melancia na parede, meteu dedo no ventilador, pisou no meu óculos. Foi horrível.

      Tiveram duas primas estonianas muito bonitas, gente boas e carregando uma barra de haxixe do tamanho de um tijolo, vieram pra ficar duas noites e ficaram uns 18 dias.

      Fora esses casos e as meninas que eu tracei, não tenho muita lembrança memorável não.. a maioria vem, bate papo, vê o que tem pra ver de turístico e vai embora sem nada muito interessante ter acontecido.

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    2. E você não tentou nada com as Estonianas por qual motivo?
      Como você 'chegava' nas garotas?
      Você não ficava com medo de ser roubado? Como se precavia?

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  6. Como já dizia um professor que me deu aula na faculdade "Faça o que você precisa, depois o que gosta!".

    É triste ver as pessoas levarem o "Faça o que te deixa feliz" ao pé da letra, pois muita das vezes elas acabam levando um tombo feio e muitas das vezes, não voltam a caminhar.

    Fico cada dia mais chateado quando vejo a cultura, costumes e gostos que estão sendo construídos na nossa sociedade atual.

    Além disso, temos um problema que é o nosso custo de vida. Tenho um primo que vive no Canadá e já morou na Austrália e na Irlanda. Ele me disse que cada país tem seus prós e contras, mas no final das contas, por mais escroto que seja seu salário, é possível viver com um pouco de dignidade e poder separar um punhado pra tomar aquela cerveja sem afetar no orçamento mensal.

    Resumindo, é triste e deprimente não ter a oportunidade de poder errar neste quesito "fazer o que amamos", pois já gastamos um bom tempo de nossas vidas estudando e adquirindo melhores competências (graduações, MBAs, etc), para ganharmos um salário melhor e mais digno para talvez, tentar viver um pouco melhor.

    Mais uma vez, grande post Madruga!

    Forte Abraço!

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    1. Concordo com o seu professor, Albino, e digo mais, se o que você gosta é conhecido por não trazer um grande retorno financeiro, tipo filosofia, melhor transformar isso em hobby do que em profissão! Digo isso por experiência própria e olhando a merda que se tornou a vida de 99% das pessoas que conheço que não seguiram esse conselho.

      Abraço!

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  7. Parabéns Madruga, excelente post!!

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  8. fiz o contrario.
    larguei o q gostava (insisti 5 anos) pra ganhar dinheiro.
    jamais me arrependi.

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    1. Que bom, Anon, antes mesmo de entrar na universidade eu já tinha resolvido transformar o que eu gostava em hobby em vez de profissão, e só tenho a agradecer ao Madruga do passado por essa escolha.

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  9. Quem é pobre, fudido não tem direito a sonhar ou a viajar na maionese. Pobre deve lutar para ganhar dinheiro em primeiro lugar.

    Depois de encher o rabo de grana é possível viajar pelo mundo, curtir cinema iraniano, defender causas bacanas. Mas só depois da grana estar no bolso.

    Na vida, em primeiro lugar vem o dinheiro.

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    1. Com certeza, com o capitalismo não se brinca. Dinheiro traz comida, segurança, conforto e saúde (na medida do possível).

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  10. Os grandes capitalistas do passado só pensavam em dinheiro e buc....Ralavam na firma de dia, para pegar uma perereca de noite.

    Isso por anos até estarem em condições de morar em mansão.

    Hoje em dia há essas porras alternativas para pleibas e outros vagabundos.

    Sei que para poder parar de trabalhar e viver de dividendos serão de 10 a 15 anos de trabalho e aportes.

    Talvez depois desse período eu consiga correr na praia todo dia de manhã e passar o resto da tarde bebendo água de coco e contando meus dividendos.

    15 anos de aportes, sem direito a filho, sem carro, sem casa própria.

    Mas vagabundo da Europa vem aqui ficar de bobeira, pois tá com tudo garantido na volta. Eles podem, talvez eu fizesse o mesmo se pudesse. Só que agora meu lance é fazer grana.

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  11. Um coisa que me deixa levemente incomodado são essas mulheres do facebook/instagram que ficam postando a vida que levam, festas baladas, viagens, enquanto a gente aqui aportando cada migalha pra poder desfrutar de um futuro seguro...

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    1. Asa mulheres nasceram com uma fábrica de dinheiro entre as pernas. Tudo para elas é fácil: sexo, baladas, roupas, viagens. Sempre haverá milhões de machos querendo pagar por uma buc... Essa é a regra do mundo e sempre vai ser assim.

      Quem é pobre tem de aportar forte se quiser comer buc... fartas depois dos 40. São necessários de 10 az 15 anos de aportes para poder receber dinheiro suficiente capaz de sustentar amantes top.

      Até lá o pobre deve aportar e comer mulher feia, a realidade é essa. Nem adianta chorar.

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  12. Isso é verdade, mas tem muita falsa ostentação aí além de muita futilidade. Tem gente que parece foda nas redes sociais, mas é só nessas redes mesmo.
    Podem me considerar ultrapassado em algumas coisas para os dias de hoje, mas pra mim redes sociais tem muito pouca utilidade real. há muito exibicionismo, selfies, pensamentos filosóficos ou religiosos, fotos de comida etc.
    Mas experimentem ficar sem isso e usar somente celular e e-mail e depois avaliem o que realmente perderam de importante.
    Com relação as mulheres muitas tem condições de bancar esses gastos, fica a critério das pessoas esbanjar ou não.

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  13. Nessas redes sociais há muita mentira e conversa fiada.

    No nosso mundo real, quem manda é dinheiro.

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  14. Realmente Madruga.

    Concordo plenamente com você e fiquei curisoso com essa coisa de hospedar gringos em casa.

    Talvez algum dia eu faça algo para ver como é.

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    1. Vidinho, tudo bem? Foi uma experiência interessante! Hoje em dia o Hospitality Club não tem mais público, os sites do gênero que estão mais em evidência são o CouchSurfing.com e o BeWelcome.org

      Abraço!

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  15. Realmente é muito fácil cair no mundo e fazer o que der na telha quando se tem seu porto seguro sempre te esperando.

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  16. Belo Post Madruga!
    Concordo com tudo, para quem não nasceu em berço de ouro, é necessário seguir os passos da estabilidade financeira. Queremos fazer o que gostamos mas temos que sobreviver kct!

    Chorei de rir na tática da geladeira e a cara do maluco no gif hahahahha, mandou bem!
    Bela estratégia no abatedouro.

    Abração!

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  17. A cara do maluco do gif é realmente muito boa, não consigo olhar sem rir
    Abraço!

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