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Vovó safada - parte 1" compartilhei com vocês um acontecimento desagradável: a mãe do meu pai o abandonou quando ele tinha 7 anos de idade,
sumiu por cinquenta anos, e agora ressurgiu das cinzas ao ajuizar uma ação de alimentos contra ele, pedindo que a justiça condene o meu pai a pagar, a título de prestação alimentícia, 30% de toda e qualquer renda líquida que ele aferir.
Pra quem não captou o absurdo da situação: por conta dessa ação de alimentos, meu pai passou a correr risco de ter que entregar 30% da renda mensal dele de mão beijada para a mulher que o abandonou quando ele era criança e não se importou em saber se o próprio filho estava vivo ou morto no meio século que se sucedeu.
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Como me sinto toda vez que penso na pessoa maravilhosa que é essa minha avó |
Não sei se eu deveria escrever isso pois me parece um tanto quanto óbvio, mas por precaução eu digo:
leia a parte 1 antes de ler a parte 2.
Sem mais delongas, vamos à parte 2:
Logo no começo do processo, mesmo antes de notificarem meu pai para que ele pudesse apresentar sua defesa, a justiça já havia determinado que ele deveria pagar 2 salários mínimos mensais para a mãe dele, que serviria como uma espécie de pensão alimentícia provisória enquanto a questão não fosse decidida de forma definitiva pelo Poder Judiciário.
Em outras palavras, meu pai mal tinha tomado conhecimento acerca da existência do processo e já levou porrada, tendo que depositar R$ 1.760,00/mês para a mãe dele sob pena de ser preso, que é o que acontece com quem não paga pensão alimentícia.
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O recado da justiça estava dado: ou meu pai depositava R$ 1,7 mil/mês na conta da vigarista, ou iria preso. |
E os problemas não pararam por aí: a ação de alimentos foi ajuizada num interiorzão do norte do país, e meu pai precisava contratar um advogado disposto a defendê-lo lá.
Depois de muita busca, tendo que lidar com advogados que reprovariam com louvor numa prova de português do ensino fundamental, conseguimos encontrar um advogado que parecia saber do que estava falando, e lá se foram mais R$ 4.500,00 para contratá-lo.
A defesa foi apresentada por escrito, e nela meu pai teve a oportunidade de contar sobre o abandono, e demonstrar que seria um absurdo condená-lo a pagar pensão a uma mãe que nunca esteve presente.
O dia da audiência estava se aproximando e lá foi meu pai gastar quase R$ 1.500,00 entre passagens aéreas e hospedagem para ficar frente a frente com a vovó safada pela primeira vez desde a longínqua década de 60.
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Imagem que retrata com riqueza de detalhes o meu pai contra a Vovó Safada numa sala de audiência no norte do país |
O dia da audiência chegou e a Vovó Safada apareceu no fórum acompanhada de uma dezena de parentes - um bando de tias e primos do meu pai cuja existência ele desconhecia, mas que ele reconheceu como prováveis parentes por conta das semelhanças físicas.
Os lacaios da Vovó Safada estavam naquela farofada/gritaria que sempre acontece quando meia dúzia de pobres se juntam, e às vezes olhavam de lado para o meu pai e cochichavam alguma coisa entre si, davam risadinhas etc.
Nesse momento pré-audiência meu pai pôde observar algo interessante: a parentada que ele acabara de conhecer estava naquele clima de final de copa do mundo, empolgadíssimos com a perspectiva de parasitar 30% da renda dele (algo na faixa de R$ 6 mil), enquanto a própria Vovó Safada estava sentada num canto, com uma bengala velha em mãos e um olhar perdido.
Ficou meio evidente naquele momento que quem estava por trás da ação de alimentos eram esses parentes. Provavelmente eles investigaram, descobriram que a Vovó Safada tem um "filho rico", e se animaram com a possibilidade de tirar dinheiro do bolso desse filho sem muito esforço.
Mas enfim, chamaram para a sala de audiência somente a Vovó Safada, o advogado dela, o meu pai e o advogado dele.
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Como eu imagino que é uma audiência que trata de questões familiares |
A Juíza perguntou se existia alguma possibilidade de acordo, e o advogado da Vovó Safada disse que pra fechar um acordo aceitaria que a pensão alimentícia fosse 15% da renda mensal líquida do meu pai (algo em torno de R$ 3 mil).
O advogado do meu pai recusou e não fez nenhuma contraproposta.
Diante da falta de acordo, a juíza passou de 20 a 30 minutos lendo o processo em silêncio, enquanto os advogados, meu pai e a Vovó Safada ficaram lá sentados, um de frente pro outro, com cara de tacho esperando a mulher terminar de ler.
Assim que terminou de ler o processo, a juíza quis ouvir o que a Vovó Safada tinha a dizer, mas ela não conseguia se expressar direito, e o advogado dela ficou em silêncio em vez de ajudar a organizar as ideias.
Depois disso a juíza quis ouvir meu pai, que contou sobre o abandono, que nos últimos 50 anos a velha nunca nem se deu ao trabalho de escrever uma carta, dar um telefonema, adicionar no Orkut, enfim, nenhuma forma de contato.
A juíza encerrou a audiência, disse que a sentença sairia em breve e meu pai voltou pra casa.
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Em breve? Em breve quando? Cada mês que esse em breve demorar meu pai perde R$ 1,7k. |
Felizmente a sentença realmente saiu rapidinho, e nesse momento tenho a felicidade de compartilhar com vocês o fato de que a Vovó Safada e seus lacaios tomaram no tereco.
A juíza teve a sensatez de perceber o absurdo da situação, e ainda aproveitou a sentença para dizer que, como ser humano e mãe de dois filhos, achava um absurdo uma pessoa abandonar o filho ainda criança e nunca mais fazer contato.
Pela sentença, meu pai ficou desobrigado de prestar qualquer tipo de auxílio financeiro à Vovó Safada.
Logo depois da sentença começou o prazo para recurso. O advogado da Vovó Safada informou no processo que o contrato dele com ela se encerrou (sei lá por qual motivo, provavelmente falta de pagamento), e o prazo pra recurso acabou sem que a Vovó Safada tenha apresentado apelação.
Acabou, pois, o drama, e agora meu pai pode dormir tranquilo.
O final foi feliz, mas já pararam para calcular o prejuízo que meu pai tomou na aventura judicial da Vovó Safada?
R$ 5.280,00 correspondentes a 3 meses de pensão provisória.
R$ 4.500,00 da contratação de advogado.
R$ 1.500,00 entre passagens aéreas, hospedagem e alimentação.
Total: R$ 11.280,00.
Isso só de prejuízo financeiro! E o desgaste mental de ter passado por uma situação dessas?
É fogo, amigo!
Tratem bem seus filhos se quiser que eles cuidem de você na velhice!
Aquele abraço!