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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O que fazer após a independência financeira?

Estava lendo um blog gringo de um cara que alcançou a independência financeira, parou de trabalhar e passou a viver de renda passiva. Vejam só como o sujeito descreveu a própria vida: 
Minha vida ainda é um pouco estruturada pois minha esposa tem um emprego e nós dividimos um carro, então eu tento deixá-la no trabalho e buscá-la. Eu penso em jogar golfe a maior parte do tempo. Eu joguei golfe cinco vezes na semana passada, mas geralmente jogo três ou quatro vezes por semana, tirando um dia de folga após cada partida. Em dias em que tiro folga (como hoje), eu sinto como se estivesse sem jogar há anos e fico pensando na próxima partida.
O cara alcançou meu maior objetivo, que é viver de renda passiva, e agora sua rotina consiste em levar a esposa pro trabalho e jogar golfe.

 Porra, blogueiro gringo! Fiquei entediado só de me imaginar numa vida assim.
Depois disso pensei melhor e vi que blogueiro gringo está fazendo a coisa certa. Basta reler as palavras dele para ver como ele está entusiasmado e feliz com o golfe, então quem sou eu para julgá-lo? O cara vive de renda passiva e gasta o tempo dele com o que o faz feliz, ponto final!  

Não existe certo ou errado para a felicidade, a não ser que sua felicidade consista em molestar crianças, violar sepulturas, assistir Encontro com Fátima Bernardes e outras atitudes doentias, ou em tomar decisões autodestrutivas que atentam contra a sua saúde mental, física e financeira.

Mas se eu não sinto prazer algum em jogar golfe compulsivamente tal qual o blogueiro gringo, o que a independência financeira representa para mim? Por que diabos acordo pensando em renda passiva e durmo pensando nela? 

Os meus motivos eu listo a seguir: 

1) Liberdade de não trabalhar

O maior motivador da minha busca pela independência financeira é não precisar mais trabalhar. É saber que eu estou livre de uma obrigação que ocupa manhã e tarde da maior parte das pessoas, e que posso dedicar meu tempo livre a ler livros, escrever no blog, buscar conhecimento, praticar exercícios físicos, me alimentar da melhor forma possível e fazer coisas improdutivas como ver séries, ouvir música e encher o saco das pessoas.

Há quem veja essa ideia de não trabalhar como algo anticapitalista, mas lembre-se que estou falando de parar de trabalhar por viver de renda passiva, ou seja, mais capitalista impossível.

Antes que alguém atire essa pedra, devo dizer que não sou infeliz no meu trabalho. Muito pelo contrário: tenho conforto e autonomia profissional bem acima da média e me dou bem com todo mundo que lido diariamente. Ainda assim, nada supera minha vontade de me ver livre da obrigação da trocar vida por dinheiro.

2) Mobilidade

Mobilidade é consequência da liberdade que a renda passiva pode proporcionar. Mobilidade pra mim significa estar onde eu quiser, quando eu quiser.

Seu primo está com vontade de conhecer Gramado? Poxa vida, ele não tem dinheiro nem tempo pra isso. Quem sabe um dia ele consiga, com o devido planejamento.

Você é independente financeiramente e acordou com vontade de ir para a Bulgária? Parabéns, você tem tempo e dinheiro pra isso.

Boa viagem.
Como não sou casado nem tenho filho, a única coisa que me prende geograficamente a determinado lugar é o trabalho, e parar de trabalhar significa mobilidade absoluta, podendo ir pra onde quiser sem precisar avisar pra ninguém ou me preocupar com quem deixei para trás.

3) Proximidade com certas pessoas

Tenho amigos e familiares espalhados pelo Brasil e em outros países. Raramente os vejo, pois quando você trabalha só consegue se deslocar grandes distâncias por um bom período de tempo durante as férias.

Com a independência financeira eu gostaria de visitar essas pessoas com uma frequência bem maior, e a liberdade de não trabalhar somado à mobilidade permitem isso.

4) Imigração permanente

Tá aí um assunto que eu nunca mencionei aqui no blog, mas que tenho sempre em mente. O Estado brasileiro é uma organização criminosa, e eu não necessariamente morro de amores por viver embaixo desse guarda-chuva.

Gostaria de viver em um país com menos insegurança, menos supremacia do funcionalismo público sobre a iniciativa privada e menos filhos da puta passando a rola na cara do cidadão comum todo santo dia. Não faço questão de viver num país perfeito, mas avacalhado como o Brasil aí já é demais.

Vocês devem ter visto nos jornais a Ministra que fez uma analogia ao trabalho escravo para pedir vencimentos de R$ 61 mil/mês. Parece ser um caso único de Ministra sem noção que falou besteira, mas a real é que esse tipo de deboche é diário, permanente, presente em todas as esferas dos três poderes e no Ministério Público, de forma que até o órgão que deveria lutar contra a festa do cachorro louco também mama na teta com auxílios e penduricalhos.

Gosto do Brasil, mas acho que prefiro visitar o país como turista quando der vontade em vez de ser um morador. Sem sombra de dúvida uma bela renda passiva contribui para um projeto imigração.

Vai sair do país? Poxa, fica mais.
Breve conclusão:

Meu sonho de independência financeira não inclui carro importado e uma mansão com 30 mulheres dançando na piscina ao som de Mc Rodolfinho.

É algo bem mais simples que isso, e consiste em parar de trabalhar, possivelmente sair do país de forma definitiva, estar onde eu quiser e quando eu quiser, estar mais próximo de boas companhias, aprender novos idiomas e conhecimentos práticos úteis, abandonar as refeições apressadas e os exercícios físicos com sono, enfim, usar meu tempo na terra com mais qualidade.

E aí, pessoal, quais são seus planos pós independência financeira?

Aquele abraço!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

5 dicas para viver sem carro

Carro é um tema recorrente na blogosfera financeira, e assim não poderia deixar de ser, já que qualquer pessoa minimamente preocupada com finanças não pode ignorar o fato de que manter um passivo ambulante de uma tonelada envolve uma série de despesas ordinárias e extraordinárias de considerável impacto no orçamento. 

Não são poucos os posts na blogosfera sobre o custo mensal de se manter um carro
O post de hoje será diferente dos que existem por aí pois eu sou um especialista em não ter carro. 

Com quase 30 anos de idade, não tenho nem nunca tive carro, muito menos dirigi veículos de outras pessoas.

Sempre priorizei a boa e velha caminhada como principal meio de locomoção. Quando o calor infernal, o horário ou a distância me impedem de caminhar, recorro ao transporte público ou Uber. 

Seu Madruga caminhando rumo ao trabalho
Graças a essa predisposição em fazer tudo andando, transporte não é uma despesa relevante no meu orçamento. Confiram minha despesa mensal com locomoção nos últimos oito meses, desde que eu comecei a registrar cada centavo gasto com transporte:

OBS: abril ainda não acabou, mas incluí de qualquer forma.
Como vocês podem ver, gasto em média R$ 124,00/mês com locomoção, e, mesmo não tendo carro, nunca atraso em compromissos e sempre chego onde quero chegar.

Se você pretende um dia abrir mão do seu carro, siga as dicas a seguir, que certamente facilitarão e muito a sua vida.

1) More perto do trabalho

Já que trabalho envolve deslocamento diário e ocupa parte relevante do tempo de qualquer pessoa, é um tanto quanto óbvio que morar perto dele diminui drasticamente os seus custos com transporte e a sua necessidade de ter um carro.

Por muitos anos morei de aluguel em um apartamento que ficava a exato 1 Km de distância da minha empresa. No ano passado, comprei um apartamento que está ainda mais próximo: 800 m.

Devo dizer que é uma enorme satisfação fazer o percurso casa x trabalho em uma simples e rápida caminhada. Isso pra mim era apenas uma questão de economia, mas com o tempo foi se tornando sinônimo de qualidade de vida.

Boto o fone, o óculos de sol e vou andando pensando na vida
Claro que, para morar perto do trabalho, é preciso que o seu trabalho não esteja situado num lugar merda, senão para morar perto dele você teria que viver em uma vizinhança merda, aí a qualidade de vida que eu mencionei deixa de existir.

2) More perto de supermercado 

Para uma vida sem carro ser mais tranquila, é importante também que você viva perto de um supermercado.

O motivo é evidente: você não precisará se deslocar grande distância para ter acesso a produtos que suprem suas necessidades básicas (alimentos, produtos de higiene pessoal e de limpeza da casa).

No meu específico caso, estou a 600m de distância de um supermercado.

Vou ser bem sincero com vocês, esse supermercado perto da minha casa é uma espelunca. O atendimento é horroroso, o chão vive sujo e a sessão de congelados fede tanto que tenho certeza que tem um cadáver em decomposição atrás dos freezers. Mas para as necessidades básicas ele atende bem.

Quanto mais perto, melhor. 

3) Bônus: farmácia, academia, ponto de ônibus

Eu diria também que seria excelente, mas não necessariamente imprescindível, se você morasse perto de uma farmácia, de academia e de ponto de ônibus/estação de metrô.

No meu específico caso, estou a 120m de uma farmácia, 450m da academia e tão perto de um ponto de ônibus que nem me preocupei em medir a distância.


4) Deixe de frescura

Toda vez que o homem médio é elevado a um novo nível de conforto, cria resistência à possibilidade de retornar à situação anterior em que o "novo conforto" não existia. Com o carro isso parece ocorrer com ainda mais intensidade.

Abrir mão do carro significa ter que lidar com caminhadas, ônibus, metrô e Uber. Enquanto muita gente fica aterrorizada só de pensar em viver dessa forma, eu particularmente não vejo problema algum nisso, pois economizo dinheiro e sempre chego pontualmente onde quero chegar (pontualidade é uma questão de organização, independentemente de você ter ou não carro). 

Deixar de frescura significa deixar de achar que só o carro particular é sinônimo de transporte com dignidade, enquanto todas as demais opções existentes por aí são inviáveis porque "transporte público é precário", "fazer as coisas andando é perigoso", e todo aquele discurso que o brasileiro tem na ponta da língua e que faz a alegria dos donos de montadoras de carros.

A boa notícia é que, se você não mora num gueto ou na puta que pariu, é bem possível que você esteja mais bem servido pelo transporte público do que imagina. Devo ser um cara de muita sorte, pois 90% das vezes que entro num ônibus ele está assim: nem cheio, nem vazio.

5) Aprenda a lidar com o "bullying"

A quinta e última dica é bem importante, especialmente se você é homem e vive num ambiente de classe média ou alta.

Depois que você alcança certa idade, as pessoas simplesmente partem do pressuposto que você tem um carro, e ficam bastante confusas quando descobrem que você não tem.

Minha reação quando um conhecido ou conhecida descobre que não tenho carro e começa a fazer perguntas sobre isso
O bullying vai além: carro é um símbolo de status é muitas pessoas presumem que estou fudido financeiramente por não ter um, ou pelo menos acreditam que os anos passam e eu não evoluo na vida.

Há, ainda, as pessoas que presumem que, por eu não ter um carro, sou uma espécie de hipster ou militante da mobilidade urbana que venera o Fernando Haddad. Não sou nada disso, apenas não tenho carro.

Se além de homem você é solteiro, e eu digo isso com conhecimento de causa pois fui solteiro sem carro por muitos anos, posso te garantir que a falta de carro vai dar uma bela atrapalhada nas suas saídas. Os mais atiçados vão dizer que isso é futilidade feminina, mas eu acho que não. O preconceito contra os descarreados independe de gênero, e ao não ter carro você sai perdendo em relação a quem tem.

Enfim, ao não ter carro em um ambiente de classe média você lida com algum grau de encheção de saco, pressãozinha, olhares tortos e sabe-se lá mais o quê.

É preciso, pois, aprender a lidar com isso sem stress, o que às vezes exige bastante auto-controle para acabar não mandando alguém tomar no meio do cu naquele lugar.

Uma breve conclusão:

Amigo leitor, se você quer ter carro tudo bem, se você não quer ter carro também. A intenção do post é tão somente mostrar que é possível viver sem, mas no fim das contas você deve fazer o que bem entender.

E já que o assunto do post é vida sem carro, não posso deixar de render minhas homenagens a todos os motoristas de Uber, que me carregam por aí madrugada adentro por um preço estupidamente baixo.

Obrigado, amigo motorista.
Aquele abraço!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Ganhando dinheiro com processos judiciais

Se você mora no Brasil há mais de 20 minutos, sabe bem que os órgãos de proteção ao consumidor são sucateados, e as grandes empresas se aproveitam disso para dar aquela cagadinha marota na cabeça do consumidor.

Funcionários do Procon trabalhando intensamente
Faz um tempo que eu resolvi não deixar barato quando uma empresa me sacaneia, e percebi que processos judiciais são uma excelente forma de ganhar dinheiro.

Foi por isso que, em 2015, ganhei R$ 4.000,00 de indenização por dano moral quando processei a C&A por ter me negativado indevidamente. Contei essa história com detalhes neste post.

Seu Madruga com os R$ 4.000,00 recebidos da C&A
Ainda em 2015, processei uma empresa aérea e ganhei passagens de ida e volta para a Europa, para mim e para acompanhante, conforme compartilhei neste post.

Passagem aérea não é dinheiro, eu sei, mas consegui elas de graça, e no período em que vou viajar vocês não encontram passagens para dois adultos por menos de R$ 7.000,00.

Seu Madruga na Europa
E meu último sucesso judicial veio agora, em fevereiro de 2017.

No fim do ano passado, comprei uma estante de R$ 300,00 pela internet e não recebi. Processei a empresa e a audiência de conciliação foi há alguns dias atrás.

Fechei um acordo com a empresa onde receberei de volta os R$ 300,00 que foram debitados da minha conta, e R$ 1.500,00 de danos morais que turbinarão o aporte de fevereiro.

Em breve segurarei os R$ 1.500,00 mais fáceis que já ganhei na vida
A lição do post de hoje é: grandes empresas desrespeitam o consumidor o tempo inteiro, e saber quando e como processá-las é um conhecimento valioso para embolsar uma grana extra de vez em quando.

Se vocês se interessarem pelo assunto, posso fazer um post bem didático de como processar no juizado especial cível (pequenas causas), inclusive sem a necessidade de contratar um advogado.

Mas diz aí, amigo, já passou perrengue na mão de alguma empresa? Procurou o Procon? Processou? Ganhou, perdeu, fez acordo, matou o dono da empresa?

Aquele abraço!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A romantização da irresponsabilidade financeira

Na rua onde moro tem uma galeria comercial, e na calçada em frente a essa galeria sempre tem uns hippies vendendo artesanato.

Figura muito comum nas grandes cidades
Os hippies chegam por volta das 9 horas da manhã, colocam um tapete gigante no chão, expõem suas mercadorias sobre o tapete, e ficam ali fazendo/vendendo artesanato até sete horas da noite, quando eles recolhem tudo e vão embora para o buraco de onde vieram a terra mágica dos hippies.

Esse é um ritual que se repete todo santo dia, inclusive feriados, dias chuvosos, dias de calor intenso, não importa, eles sempre estão lá, servindo de poluição visual para a minha rotina, junto com os mendigos e os viciados em crack que ficam jogados pelas calçadas do bairro.

Os dreads horrorosos que eles têm na cabeça, as roupas de palhaço que vestem e as tralhas que vendem em cima do tapete escondem uma ironia muito grande: eles escolheram ser hippies para viver fora do sistema, e agora eles passam umas 70 horas por semana trabalhando para não morrer de fome.

Como eu me sinto quando passo pelos hippies
Mas não é sobre os hippies da minha rua que eu quero falar no post de hoje, e sim sobre um artigo que li na semana passada.

O artigo, originalmente publicado no Estadão, se chama "A geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão", e fala sobre como os nossos pais são de uma geração excessivamente focada na construção de uma carreira profissional, e que talvez caiba a nossa geração quebrar esse paradigma, a exemplo do "amigo formado em comércio exterior que resolveu largar tudo para trabalhar num hostel em Morro do São Paulo, amigo com cargo fantástico em empresa multinacional que resolveu pedir as contas porque descobriu que só quer fazer hambúrguer", dentre outros exemplos utilizados pela colunista.

Ainda segundo a colunista, nossa geração sofre de uma crise nervosa por termos herdado, dos nossos pais, um conceito de sucesso baseado em carreira profissional/dinheiro, e que talvez seja hora de:
[...] aceitar que nosso modelo de sucesso é outro. Talvez uma geração carpe diem. Uma geração de hippies urbanos. Caso contrário não teríamos tanta inveja oculta dos amigos loucos que "jogaram diploma e carreira no lixo". Talvez - mera hipótese - os loucos sejamos nós, que jogamos tanto tempo, tanta saúde e tanta vida, todo santo dia, na lata de lixo. 
Enfim, a colunista encampa um discurso que todo mundo já conhece: o larga tudo e vai ser feliz.

Essa suruba de ursinhos carinhosos foi a melhor imagem que encontrei para representar a meiguice do discurso em questão
É um discurso que trata de maneira muito simplória uma questão complexa, e quem se deixa seduzir por esse papo corre sério risco de tomar no furico, para não dizer coisa pior.

A geração dos nossos pais é focada em trabalho e dinheiro por um motivo muito simples: sobrevivência.

É a primeira geração pós-êxodo rural, em que o Brasil deixou de ser um grande fazendão e passou a se urbanizar/industrializar, substituindo a vida da grande família no campo por relações socioeconômicas urbanas complexas onde ou você trabalha e faz dinheiro, ou você não vai ter onde dormir ou o que comer.

E o que mudou desde então, para justificar que sejamos uma geração carpe diem de hippies urbanos, como propõe a colunista?


Aliás, as coisas mudaram sim, mas para a pior: há mais população, mais violência, mais competitividade, mais desemprego e mais dificuldade em conseguir uma vida digna.

Dentro de um contexto desses, nós temos ainda mais motivos para nos preocuparmos com emprego e finanças do que os nossos pais tinham, e a sugestão de que nos tornemos uma geração "carpe diem", de "hippies urbanos" se torna algo extremamente dissociado da realidade, exceto se:

1) Você tem família rica e tem pra onde correr caso você canse de brincar de empregado de hostel em Morro do São Paulo.
2) Você vive em país desenvolvido em que é possível viver dignamente mesmo com trabalhos manuais, o que lhe permite largar e arranjar um emprego a hora que você bem entender, e sugar benefícios sociais entre um trabalho fixo e outro.

Se você não preenche pelo menos um dos dois requisitos acima e ainda assim quer largar sua carreira para "viver com dinheiro contadinho", tal qual disse a autora, pergunto-lhe:

Uma vida sem preocupação com o dinheiro pode ser o seu conceito de felicidade hoje, mas será que você terá essa opinião em três, cinco, dez, vinte anos?

Caso você mude de opinião, você acha que será fácil reingressar no mercado de trabalho que te garantia uma remuneração digna, ou o gap no seu currículo te colocará abaixo dos concorrentes?

Você está a fim de depender do SUS se tiver problemas de saúde?

Vai depender do INSS quando se aposentar?

Vai se achar o bem vivido quando chegar aos 40 anos contando moedinha pra pagar a conta de luz?

Boa sorte com isso
Assim como a colunista, eu sou um entusiasta da busca pela felicidade.

Mais do que isso: acredito piamente que felicidade não é sinônimo de acúmulo de bens materiais, e que pessoas infelizes devem refletir bem sobre o assunto visando reverter o estado em que se encontram.

No entanto, a busca da felicidade não deve passar pela tomada de decisões financeiramente estúpidas, a não ser que você ache que viver com orçamento apertado num país subdesenvolvido seja uma boa ideia (e se você acha isso, eu sinceramente nem sei mais o que te dizer).

Dos hippies mencionados no começo deste post à geração de hippies urbanos proposta pela colunista, é sempre bom lembrar de um detalhe muito importante: a conta sempre chega!

Aquele abraço!

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Inflação do padrão de vida e efeito Diderot

É curioso como a corrida dos ratos (ou matrix financeira, ou qualquer outra denominação que você preferir) vai sorrateiramente dominando a vida das pessoas sem que elas ao menos percebam o que está acontecendo.

A idade em que me encontro - quase 30 anos - tem me permitido assistir de camarote como pessoas da minha faixa etária vão lentamente entrando nessa dança de gastar o que ganham sem grandes preocupações.

O fenômeno inicia quando, depois de alguns anos no mercado de trabalho, o jovem adulto finalmente começa a ganhar uma remuneração que considera digna.

É nesse momento que a grande maioria das pessoas, deslumbradas com um poder de compra que nunca tiveram, querem experimentar o melhor que sua nova capacidade financeira pode oferecer, e ao proceder dessa forma entram numa espiral de consumo geralmente sem saída.

Mas não se trata apenas de uma questão de experimentar o melhor: o brasileiro médio sente uma necessidade enorme de se exibir perante terceiros, e está mais do que disposto a pagar caro pra "mostrar que está bem".

Como eu vejo o Facebook: "Olá amigos. Eu tô bem. Comentem com os outros sobre como minha vida é maravilhosa, por favor. E deem like na minha foto".
Postar seu extrato bancário no seu perfil do Facebook só faria você se passar por doido, então a forma "socialmente adequada" de massagear seu próprio ego perante terceiros não é mostrando que você tem dinheiro em espécie, e sim transformando a grana em bens materiais, como uma camisa de R$ 400,00, um carro de R$ 80 mil e ingressos de R$ 150,00 para baladinhas caras, para o deleite dos fabricantes de camisa, das montadoras e dos organizadores de festinhas.

A busca por mais conforto, o vício nos pequenos prazeres de curto prazo e a necessidade de se exibir para os outros encarece e muito o custo de vida - é a famosa "inflação do padrão de vida" - e quando a pessoa se dá conta, o que ela enxerga como sua própria vida envolve uma estrutura muito cara de se manter.


Um exemplo bem interessante da inflação do padrão de vida vem de 247 anos atrás, quando o filósofo francês Diderot escreveu um pequeno texto intitulado "Regrets on Parting with My Old Dressing Gown".

Como o texto em questão é chato pra cacete, eu prefiro resumir pra vocês do que recomendar que vocês leiam por conta própria:

Diderot estava feliz com o seu roupão velho e surrado, até que foi presenteado com um novo roupão de altíssimo nível.

"Tô chique pra caralho com esse novo roupão", pensou Diderot
Olhando ao seu redor, Diderot se deu conta de que, comparado ao seu elegantíssimo roupão novo, todas os bens dentro de sua quitinete pareciam uma grande bosta.

Sentindo-se mal por estar vestindo um roupão aristocrático enquanto vivia num cafofo cheio de móveis comidos de cupim, nosso amigo Diderot foi na Tok&Stok e comprou novos móveis, além de ter ido nas Lojas Americanas comprar novas panelas e outros utensílios domésticos.

O texto termina com Diderot se lamentando sobre como essa sua nova postura lhe entupiu de dívidas, e a conclusão apenas reforça o que ele afirma logo no começo do texto: que ele era o mestre de seu roupão velho, mas se tornou um escravo do seu novo roupão.

Botando a firula de lado, o que Diderot quis dizer é que antes ele controlava sua própria vida, mas depois se tornou escravo do novo padrão que passou a ostentar, já que manter esse padrão custa caro e lhe endivida.

Esse conto é legal porque a grande maioria das pessoas são vítimas do efeito Diderot: vão introduzindo bens cada vez mais sofisticados em sua vida, e quando menos se dão conta estão numa espiral de consumo que, como eu disse antes, costuma ser um caminho sem volta.

Para explicar de forma bem didática porque a inflação do padrão de vida costuma ser um caminho sem volta, permitam-me contar para vocês uma história real:

Uma vez um conhecido me disse: "Madruga, não tenho mais de onde cortar despesas, onde dava pra cortar eu já cortei".

Conhecendo bem a pessoa, eu poderia ter respondido: "Tem tanta despesa que você pode cortar que eu nem sei por onde começar. Troque Sky por Netflix, venda um de seus carros, venda sua moto, demita sua empregada, mande seu filho arranjar um estágio, mude para um prédio em que a taxa condominial não seja R$ 1.000,00/mês".

Essa resposta ficou só no meu pensamento. Tomado pelo bom senso, limitei-me a dizer: "pois é, não tá fácil pra ninguém", primeiro porque não queria me meter na vida dele, segundo porque o alto padrão de vida está tão fundido com a identidade dele, que ele sequer consegue enxergar aquilo tudo como despesas passíveis de serem cortadas, embora na minha perspectiva ele tivesse coisa de sobra para cortar.

"Já cortei todas as despesas possíveis"
É aí que tá o problema: o seu padrão de vida se confunde com sua identidade, e abrir mão do "padrão conquistado" traz abalo psicológico para a maioria das pessoas, que se enxergam nas posses que têm.

Agora eu lhes pergunto: a pessoa que inflou o padrão de vida está melhor do que a pessoa que não inflou, inclusive em termos de conforto? Aos olhos da sociedade a resposta é "sim, com certeza!", mas com base em uma visão mais racional, a resposta correta é não necessariamente.

Digo isso pois, pensando em termos de bem-estar, uma pessoa que mora num apartamento de 50 m² com móveis de segunda mão pode estar se sentindo bem melhor do que uma pessoa que mora em um apartamento de 150 m² com móveis planejados, por mais que a princípio isso pareça um contrassenso.

Não é um contrassenso pois a sensação de bem-estar é interior, e há quem tenha se programado para morar pequeno e esteja se sentindo bem melhor com isso do que a pessoa que inflou o padrão de vida.

Outro detalhe curioso é que, ao inflar seu padrão de vida, você tende a se sentir recompensado no curto prazo, mas no longo prazo você se acostuma com tudo que "conquistou", e ao se acostumar as suas "conquistas" não te impressionam tanto assim.

A título de exemplo: minha empresa tem uma vista privilegiadíssima, ao ponto dos clientes que aparecem por lá sempre ficarem impressionados e quererem tirar foto, inclusive conheço duas pessoas que usam fotos da vista da janela da minha empresa como wallpaper de celular.

Eu tenho consciência de que a vista é privilegiada, mas depois de cinco anos convivendo com ela é exatamente assim que me sinto toda vez que alguém aparece e solta um "caramba, que vista!":


É dizer que, mesmo tendo uma vista privilegiada no meu local de trabalho, anos convivendo com aquilo tiraram qualquer sensação de empolgação que existia dentro de mim, e o mesmo acontece com qualquer coisa relativa à inflação do padrão de vida: quando você acostuma com o padrão mais alto, a tendência é que a graça vá embora, embora o custo permaneça.

A minha vida enquanto ser produtivo tem sido uma verdadeira renúncia à inflação do padrão de vida. Desde que comecei a ganhar algum dinheiro, não busquei nada além de um teto para dormir, computador com internet e livros, isso sem a sensação de que estou fazendo um grande sacrifício.

Tirando as pequenas encrencas do dia-a-dia, eu sinto um bem-estar muito grande com a vida que levo, e posso garantir pra vocês que alguém com um padrão de vida 10 vezes maior que o meu não necessariamente está sentindo 10 vezes mais sensação de bem-estar que eu, pois não é assim que a coisa toda funciona.

Então minha dica aos amigos da blogosfera é: sempre procurem o bem-estar, mas façam isso sabendo que ele não necessariamente se encontra vinculado a um aumento no "padrão de vida", e se você sentir bem-estar sem se submeter ao efeito Diderot, você tende a ser recompensado em termos de acúmulo patrimonial.

Por fim, devo dizer que não estou de forma alguma propondo que você viva como um mendigo enquanto destina todo o seu salário à Nossa Senhora do Aporte, mas sim que pense, e pense muito, sobre a real necessidade de cada coisa que você pretende adquirir, e que reflita bastante sobre as suas necessidades, pois frequentemente mentimos para nós mesmos ao dizer que precisamos de algo só para comprar.

Aquele abraço!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

O gringo (ou: a burrice de emprestar seu nome)

A propósito do excelente post do amigo Conhecimento Financeiro, cujo título de nome auto-explicativo é "Jamais deixem usarem seu nome!", hoje vou compartilhar com vocês a enorme cagada que minha mãe fez ao emprestar o nome dela, na expectativa de que este post sirva de exemplo aos sonsos e desavisados desse meu Brasil.
 
Alguns anos depois de separar do meu pai, minha mãe começou a se relacionar e eventualmente casou com um gringo, um cara bem gringo mesmo, daqueles que só de bater o olho você já sabe que veio de algum país desenvolvido do hemisfério norte ou Austrália.

Esse tipo de gringo
Tava tudo muito bem, até que minha mãe me contou que o marido gringo dela estava querendo abrir uma empresa, mas não estava conseguindo pois a Junta Comercial estava colocando uma série de empecilhos, todos envolvendo o fato de ele ser estrangeiro.

Como eu não botava fé nenhuma na capacidade do gringo de gerenciar uma empresa (o cara mal falava português, que dirá lidar com as peculiaridades do empreendedorismo tupiniquim), orientei minha mãe a não se envolver de forma alguma com essa empresa, pois o marido dela não fazia a menor ideia do que estava fazendo e a situação toda só poderia dar em merda.

No fim das contas o gringo conseguiu abrir a empresa, e como era de se esperar em menos de 1 ano já teve que fechar as portas, culpando o Brasil e o resto do universo pelo seu insucesso empresarial, como todo mundo que quebra adora fazer.

Minha cara de surpresa quando soube que o gringo fechou a empresa
Passado alguns anos depois disso, o gringo veio a falecer.

A morte dele também não me surpreendeu muito, já que apesar de estar na casa dos 50 anos, ele tinha todo tipo de problema de coração, má circulação do sangue, urticária e um monte de outras coisas. Some isso ao fato de que ele praticamente não bebia nada que não fosse alcoólico e só comia porcaria, então talvez ele tenha vivido até demais pro estilo de vida que ele levava.

Enquanto minha mãe chorava a morte do gringo, eu, que nunca morri de amores por ele, comecei a pesquisar sobre o patrimônio que ele tinha no exterior, além de quais eram os direitos sucessórios da minha mãe de acordo com a legislação da gringolândia, mas isso é assunto para um próximo post.

Fazendo essa pesquisa, eu descobri ainda que, ignorando minha orientação, minha mãe tinha emprestado o nome dela para que o gringo conseguisse abrir a empresa aqui no Brasil.

Mais do que isso: ela estava registrada como sócia-administradora da empresa, enquanto o gringo, que era quem realmente tocava o empreendimento, figurava como um mero sócio-cotista, sem poderes de administração.

Tentei puxar certidão negativa em nome da empresa na Prefeitura Municipal e não consegui. Sinônimo de dívida. Tentei puxar certidão da Fazenda Estadual e não consegui, também sinônimo de dívida. Tentei puxar certidão da RFB/PGFN e também não consegui. A empresa estava devendo imposto para metade do universo, e tal cobrança poderia ser facilmente redirecionada para a minha mãe, já que ela era a "sócia-administradora". Puta que pariu.

Você fala pra pessoa não emprestar o nome, ela vai e empresta
Viajei para a cidade da minha mãe e descobri o tamanho do rombo: aproximadamente R$ 9 mil. Isso era menos do que a previsão catastrófica que eu tinha em mente, mas ainda assim algo totalmente fora da nossa capacidade de pagamento naquela época.

Como o único patrimônio relevante do gringo no Brasil era uma moto, vendi a moto em questão para um outro gringo, sem transferência no DETRAN nem nada, deixando o gringo-comprador totalmente ciente de que ele estava comprando aquela moto da maneira mais irregular possível.

Peguei o dinheiro da venda e quitei a pendenga tributária. Consegui as certidões negativas e dei baixa na empresa. Depois de algumas semanas de muito stress, a história teve um final feliz.

Mas o final nem sempre será feliz, meus amigos, então não empreste seu nome para ser sócio de empresa, fiador, avalista, enfim, para nada!

Conheço gente que topou ser fiador da esposa em contrato de locação de loja de Shopping, e depois veio o divórcio junto com uma ação cobrando dele mais de R$ 100 mil de aluguel e outros encargos atrasados que a agora ex-mulher deixou de pagar.

Aliás, se eu fosse contar pra vocês todos os casos que conheço de gente que se ferrou lindamente por topar ser fiador, acho que esse post quadruplicaria de tamanho. 

"Mas Madruga, eu tenho absoluta convicção de que a pessoa nunca vai deixar dívida pra mim". Pois é, o problema é que todo mundo que acaba tomando no meio do cu também teve essa convicção um dia, então se você não quiser ser presenteado com a desagradável obrigação de quitar a dívida alheia, é melhor não se sujeitar a isso em hipótese alguma.

Pesquisa recente do SPC mostra que 1 em cada 10 negativados ficou inadimplente porque "emprestou" o nome para amigos e parentes em compras/empréstimos (link), e isso demonstra que a prática de emprestar o nome é mais comum do que se imagina.

Ao entrevistar essas pessoas que foram negativadas por terem emprestado o nome, a pesquisa constatou ainda que em quase 70% dos casos o relacionamento entre o "emprestador" do nome e o caloteiro ficou abalado por conta do ocorrido.

Então não empreste o nome, não só pelo risco financeiro ao qual você se sujeita, mas também como forma de preservar relacionamento. 

Aquele abraço!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Nubank, o cartão miguxo

Eu sempre sentia um certo desgosto toda vez que olhava a fatura do meu cartão de crédito e via a cobrança de R$ 20 a título de "Anuidade Diferenciada - Parcela X/6".

Hoje completam três meses que cancelei o meu cartão de crédito no BB e me tornei usuário do cartão Nubank, e gostaria de compartilhar com Vossas Excelências como tem sido essa experiência.

Pra quem não conhece, Nubank é uma startup brasileira que funciona como administradora de cartão de crédito.

Ela oferece um cartão com zero de anuidade, bandeira mastercard internacional,  juros abaixo do praticado pela concorrência e um serviço de atendimento ao consumidor diferenciado.

Exemplo de cartão Nubank
A partir de agora, listarei os pontos positivos e negativos que venho observando ao usar o cartão Nubank e ler resenhas internet afora:

1º Ponto positivo: fazer o cadastro foi ridiculamente fácil 
 
Tudo que fiz foi baixar o app, preencher as informações solicitadas, preencher que queria R$ 1.400,00 de crédito e em questões de horas recebi a mensagem de que minha solicitação foi aprovada e que em 15 dias eu receberia o meu cartão em casa.

Fiz absolutamente tudo pelo celular, sem precisar ir em agência, sem precisar levar uma caralhada de papeis, sem precisar apresentar uma porra de uma DECORE (quem é profissional liberal sabe o que é esse troço), enfim, fiz tudo no conforto do meu lar, e isso foi um ponto bastante positivo.

No entanto, devo alertá-los que, pelo que ando lendo internet afora, muita gente faz a solicitação e fica meses aguardando a aprovação do Nubank, e há quem jamais receba a aprovação. 

Acredito que isso ocorre pois, assim como toda administradora de cartão, o Nubank faz análise de crédito das pessoas que enviam solicitação, e muito provavelmente ignora quem tem vida financeira questionável. 

Se você não deve nada pra ninguém e tem uma bela bufunfa em conta, possivelmente terá sua solicitação aprovada bem rápido, assim como aconteceu comigo. 

2º Ponto positivo: anuidade zero

Antes eu pagava R$ 120/ano de anuidade para ter um cartão de crédito. Agora pago zero. Acho que isso dispensa maiores comentários.

3º Ponto positivo: conectividade

O cartão de crédito é 100% vinculado a um aplicativo de celular que contabiliza "ao vivo" todas as transações.

Assim que você faz uma compra, ela é imediatamente registrada no extrato do aplicativo (se eu não me engano, o BB demorava três dias para registrar uma transação na fatura). Isso te dá 100% de controle sobre quanto você deve de cartão de crédito, e acaba com aquele temor que a gentalha tem de perder o controle dos gastos e no final do mês ser surpreendido com uma fatura cabeluda.

Outro ponto que achei bastante positivo é que você pode, por meio de hashtags, detalhar melhor o que diabos você acabou de comprar.

Sabe quando você vai na padaria da esquina, compra algo no cartão de crédito e no extrato aparece um nome completamente diferente ao da padaria, algo tipo "POSTO DE GASOLINA DO JAILSON LTDA", e no fim do mês você fica pensando "que porra de gasto em posto de gasolina foi esse?". Pois é, as hashtags resolvem esse problema, te permitindo detalhar melhor o que você acabou de comprar.

Exemplo do extrato.
4º Ponto positivo: você pode fechar a fatura a qualquer momento

Muito embora na hora do castramento o Nubank exija que você escolha uma data de fechamento para a sua fatura, você pode fechar a fatura quando quiser, pagá-la e recuperar a integralidade do seu limite de crédito.

 5º Bom atendimento ao consumidor

A sensação que tive na única vez que precisei usar o SAC é a de que a pessoa realmente estava comprometida em resolver o meu problema, e não em me despachar o mais rápido possível para atender ao próximo chamado. 

Você pode abrir um chamado por meio do chat que existe no aplicativo, ou seja, não precisa telefonar pra ninguém, o que também considero uma vantagem.

Ainda em relação ao SAC, o Nubank ocasionalmente manda alguns mimos para usuários do cartão, e esses usuários que recebem esses mimos vão todo felizes compartilhar o acontecimento no Facebook, às vezes sem perceber que estão se tornando uma ferramenta involuntária de propaganda. Exemplo:



Eu particularmente tenho um pouco de nojo desse miguxismo todo, e bastante desprezo por pessoas carentes ao ponto de precisar do afeto de uma administradora de cartão de crédito, mas enfim, já vi em mais de uma oportunidade gente elogiando esse miguxismo do Nubank no Facebook, então a propaganda tá surtindo o efeito desejado.

Tava bom demais para ser verdade, não é mesmo? Chegou a hora de listar os pontos negativos:

1º Ponto negativo: o programa de fidelidade é patético

O Nubank não tem um programa de fidelidade próprio. Ele tem tão somente vínculo com o programa "Mastercard Surpreenda", que pelo que pesquisei é uma bela de uma bosta.

O Mastercard Surpreenda te dá desconto em umas 10 franquias restaurantes, Cinemark, na assinatura de revistas inúteis tipo Caras, enfim, um monte de porcariazinha, nada muito atrativo.

Isso não me afeta, já que não gasto muito com cartão de crédito, e mesmo se o Nubank tivesse um programa de fidelidade decente eu nunca conseguiria acumular pontos o suficiente pra comprar algo que presta, tipo milhas ou algum produto que realmente me interesse.

No entanto, deixo o alerta: se você se interessou no Nubank com base em tudo que escrevi até aqui, fique neste momento avisado de que o cartão não tem um programa de fidelidade bom. 

2º Ponto negativo: não dá pra botar senha no app 

Não existe a opção de colocar senha no app do Nubank. Achei isso bastante estranho e inadequado, já que todo app relacionado a finanças que tenho em meu celular te dá a opção de colocar senha. 

Enfim, não é nada muito relevante, mas ao meu ver não deixa de ser um ponto negativo. 

3º Ponto negativo: conectividade

Citei a conectividade como um ponto positivo, mas citarei como negativo também como forma de alerta: o cartão é vinculado a um aplicativo para smartphone. Se você tem um celular das antigas ou até mesmo um smartphone muito ultrapassado, dificilmente vai conseguir se dar bem como usuário do cartão. 

4º Ponto negativo: fila de espera

Como eu disse no 1º ponto positivo, enviei minha solicitação e em questão de poucas horas já tinham me autorizado e enviado uma mensagem de que eu receberia o cartão em duas semanas.

Só que como eu vejo muita gente reclamando de que está mofando na fila de espera há meses, e inclusive conheço gente que está na lista de espera há mais de um ano, então resolvi colocar a tal fila de espera como um ponto negativo, embora eu mesmo não tenha passado por ela.

Mas enfim, vale a pena? 

Respondendo a essa pergunta da maneira mais objetiva possível:

Se você gasta pouco com cartão, tão pouco que nunca conseguiu comprar nada que preste em programa de fidelidade, sim, vale muito a pena!

Se, por outro lado, você for daquelas pessoas que gastam com cartão ao ponto de conseguir milhas aéreas e outras coisas interessantes, então esquece, você pode até se dar bem no quesito anuidade zero, mas vai se dar mal no que tange aos prêmios de programa de fidelidade.

Abraço!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O estranho conceito de zerar a vida

Mês passado um brasileiro de 18 anos que está fazendo intercâmbio na Austrália foi a primeira pessoa no mundo a comprar o recém-lançado Iphone 6S Plus.

Para conseguir esse feito, nosso jovem compatriota acampou durante cinco dias na frente da loja da Apple em Sidney. Assim que a loja abriu, ele entrou lá desesperadamente para pagar o equivalente a R$ 4,2 mil pelo novo telefone.

Durante seus quinze minutos segundos de fama, o sujeito declarou que por conta de tal proeza ele tinha "zerado a vida". Quem quiser saber mais sobre esse relevantíssimo acontecimento pode clicar aqui ou aqui.

O cara que "zerou a vida" 
"É só um menino de 18 anos queimando o dinheiro do pai", você pode estar pensando.

Concordo com esse pensamento, mas o fato é que esse fetiche que tanta gente tem pela Apple é um fenômeno mundial e que independe de idade.

Mas enfim, o post de hoje não será sobre o moleque da foto acima, nem sobre a Apple em específico, mas sim sobre a ideia de consumo como um todo, e sobre como grande parte das pessoas não se dá ao trabalho de refletir sobre questão tão importante.

Podemos começar nossa reflexão sobre o consumo? Podemos, mas não sem antes sentir mais uma dose de vergonha alheia proporcionada por outro Apple-maníaco:

AI MEU DEUS, COMO É BOM GASTAR DINHEIRO
Há uns 90 anos atrás, na aurora de nossa sociedade de consumo, as maiores fabricantes de lâmpadas do mundo (dentre elas General Electric e Philips) firmaram um contrato em que definiram que as lâmpadas não deveriam durar mais de 1.000 horas.

Considerando que naquela época já era perfeitamente possível fabricar lâmpadas que duravam mais de 2.500 horas, fica fácil deduzir que o acordo em questão tinha o intuito de fazer as pessoas comprarem mais lâmpadas.

Esse é tido como o primeiro caso documentalmente provado de obsolescência programada, em que o fabricante intencionalmente cria um produto programado para pifar ou se tornar menos funcional depois de determinado período de tempo.

Hoje em dia a obsolescência programada não é novidade para ninguém, estando mais presente do que nunca em itens tecnológicos (aquele seu notebook que começou a superaquecer, seu tablet cuja bateria foi pro brejo, seu celular que não suporta mais o sistema operacional do momento).

Embora a obsolescência programada ainda esteja presente nos dias de hoje, o fato é que de 90 anos pra cá surgiram estratégias mais sofisticadas para fazer o povo consumir como se não houvesse amanhã.

Descobriram, por exemplo, que era possível aplicar a psicanálise à publicidade, estimulando nas pessoas desejos e sentimento de recompensa, bem como plantando conceitos no inconsciente coletivo.

O pioneiro da psicanálise aplicada à publicidade foi um cara chamado Edward Bernays, sobrinho de Freud, que fez fortuna ao enfiar na mente dos homens de sua época que cigarro era símbolo de virilidade, ao mesmo tempo em que popularizava o fumo entre as mulheres como um sinônimo de independência feminina (dois conceitos completamente diferentes, mas isso pouco importa para quem estiver vendendo o produto).

Propaganda de 1949: pode fumar, amigão, seu dentista recomenda.
Mas vamos deixar o fumo de lado, pois a maioria das pessoas que está lendo este post não vivenciou os tempos áureos do cigarro (também não vivenciei), para tratar de um exemplo mais atual: carro.

Conseguiram, ao menos aqui no Brasil, convencer praticamente todo mundo que carro é sinônimo de sucesso, de poder econômico, que não dá pra viver sem carro, que quem não tem carro é pobre, que "brasileiro é apaixonado por carro", enfim, um monte de coisas que se tornaram dogmas incontestáveis no inconsciente coletivo nacional.

Eu sei bem que todo mundo tem 300 argumentos na ponta da língua para justificar a necessidade do carro, o que estou criticando acima é o pensamento "ou você tem carro ou você é um fudido", como se não existisse a opção de viver bem sem carro (existe essa opção, acredite se quiser).

Como carro é um tema que faria este post 10 quilômetros mais longo, vou passar para outros exemplos da atualidade: os dois mongóis nas fotos do início deste post, fazendo cara de "melhor dia da minha vida!!" pois compraram um celular que sairá de linha em seis meses, ou o cara que paga R$ 400 numa camisa da Dudalina "por causa do status, né brother?".

Se você torra seu suado dinheiro unicamente por causa do status ou por impulso, meus parabéns, você pensa da forma que querem que você pense e é a ovelha que querem que você seja, algo não muito diferente de quem passa na frente da vitrine da sapataria, não se contêm e sai de lá carregado de sacolas.

"Se entendermos o mecanismo e as motivações do pensamento coletivo, será possível controlar as massas de acordo com nossa vontade sem que elas saibam" - Edward Bernays (tradução livre)
Já entenderam o mecanismo em questão há muito tempo e a frase acima citada vem sendo posta em prática há várias décadas, de modo que hoje em dia nos identificamos com o conceito dominante de "necessidade" sem ao menos perceber. Que conceito dominante é esse? É a "criação organizada da insatisfação" descrita por Charles Kettering em 1929: é preciso plantar a insatisfação na mente das pessoas, pois se todos estivessem satisfeitos, ninguém compraria nada novo.

Sem percebermos, somos constantemente estimulados, voluntariamente por publicitários e involuntariamente pelas massas, a sentir insatisfação pelo que temos e querer trocar o antigo pelo novo. 

Você certamente faz um bem danado para a economia quando consome impensadamente, mas você também pode fazer um bem para economia (e para você mesmo) ao, em vez de consumir, aplicar seu dinheiro em renda fixa, FIIs, ações e dezenas de outras opções.

O fato é que, ao menos durante essa fase de acúmulo de capital em que o pessoal da blogosfera de finanças se encontra, quanto menos manipulável você for, maior sua chance de escapar da corrida dos ratos.

A questão é: o que fazer?

Usar o cérebro é uma opção

Como o problema não é o consumo em si, mas sim o consumo não precedido de reflexão, sugiro o seguinte: 

1ª dica: respeite o "gap" entre a vontade de comprar e a compra

A exemplo do sistema de "1 click to buy" iniciado pela Amazon e presente em grande parte dos sites, uma técnica de venda comum é diminuir o lapso temporal entre a vontade de comprar e a compra propriamente dita, por um motivo muito simples: quanto menos você pensar depois que bate aquela vontade de comprar, mais suscetível você está a acabar comprando. A primeira dica, portanto, é PENSE. Exclua o "gostei-comprei" da sua vida e tenha um momento de reflexão toda vez que você sentir vontade de comprar alguma coisa.

2ª dica: faça uma avaliação sincera sobre a necessidade da compra

"Eu vou usar esse troço regularmente?", "qual a chance dessa compra acabar abandonada num canto da casa?", "eu tenho uma necessidade genuína de comprar esse negócio ou é só para pagar de fodão perante terceiros?", "eu terei gastos adicionais com essa compra?", "eu sou tão impulsivo quanto um consumista dentro de uma loja de sapatos?", dentre outras perguntas.

3ª dica: troque o prazer em consumir pelo prazer em ver seu patrimônio crescer

Em vez de sentir prazer em ver seu dinheiro virando um monte de tralhas, que tal sentir prazer em ver o dinheiro virando mais dinheiro? Se a mágica dos juros compostos não te convence, eu sinceramente não sei  o que mais te convenceria.

Conclusão:

Sua busca pela independência financeira definitivamente será mais difícil se você não se desapegar do consumismo desenfreado praticado pelo brasileiro-médio. 

Esse desapego não é uma questão de sofrer por querer um Iphone 6S Plus e não tê-lo, mas sim desenvolver dentro de si mesmo um sentimento legítimo de que você não precisa de quinquilharias para se sentir bem.

Desenvolver esse sentimento te ajuda inclusive a alcançar a IF mais cedo, pois quanto mais lixo você quiser, mais capital terá que acumular para viver de renda passiva.

Desapega, meu amigo, e acumula capital enquanto seus pares estão lá tentando mostrar um pro outro como eles são a personificação do sucesso financeiro. 

Quando você parar de trabalhar para viver de renda passiva, a turma da ostentação vai perceber na hora que você zerou a vida e que está tarde demais para eles alcançarem o que você alcançou.

Cortei metade deste post fora para diminuir o tamanho (e mesmo assim ficou grande), então peço desculpas se algumas coisas que escrevi ficaram estranhas ou fora de contexto.

Aquele abraço!

terça-feira, 28 de abril de 2015

Apps para controle de gastos

"Com o que diabos eu gastei o meu dinheiro?" era uma pergunta muito recorrente em minha vida, até que resolvi colocar meu celular à serviço da busca pela independência financeira.

Em meio a enorme quantidade de lixo que permeia a seção de finanças da appstore, testei vários apps de controle de receitas/despesas, e hoje venho aqui perante Vossas Senhorias falar sobre dois deles.

Moni



Esse app me cativou pela sua simplicidade, e graças a isso tive uma história de amor com ele que durou mais de um ano.

O moni tem um conceito bastante simples: crie as categorias que bem entender e depois clique no + para registrar uma receita e no - para registrar uma despesa.

Segue uma foto da interface do app retirada do google imagens:

A foto está em inglês mas o app é compatível com PT-BR e R$

Com o moni baixado em meu celular, criei as categorias "Conta Corrente", "Poupança" e "Dinheiro em mãos" e assim fui tocando minha vida, anotando cada receita ou despesa feitas nessas categorias.

Porra, Madruga, anotar cada peidinho financeiro me parece desnecessário e trabalhoso. 

Caras, eu estou muito satisfeito em ter 100% de controle sobre os meus gastos e minhas receitas. Isso me permite ter um panorama completo sobre onde foi parar cada real gasto, e isso me deu mais senso crítico sobre como controlo o meu dinheiro. 

Por exemplo: você lembra exatamente de todas as despesas que teve em novembro do ano passado? Você provavelmente não lembra, e por isso você não tem como olhar pra trás e tirar lições pro futuro, pois não sabe se o dinheiro foi mal gasto ou bem gasto.

Confesso que no começo não foi fácil acostumar a registrar cada transação, mas depois que peguei no embalo não parei mais, até porque não demora nem 20 segundos pra tirar o celular do bolso e registrar uma receita ou despesa.

Se ainda assim você acha que registrar cada centavo é nazismo financeiro demais pro seu gosto, você pode, por exemplo, sacar R$ 100/mês de sua conta corrente, registrá-lo como "saque pra viver a vida" em seu moni e gastar esse dinheiro como bem entender. Dessa forma você tem R$ 100,00 (ou quanto quiser) livres de qualquer registro e o resto do dinheiro totalmente sob seu controle.

Chega de falar desse app, vamos partir para o próximo:


Meu porquinho



CALMA, eu sei o que você está pensando, mas não julgue um livro pela capa. Esse nome gay e logotipo infanto-juvenil escondem um dos apps mais fantásticos para controle de gastos que já vi na vida.

Como eu disse anteriormente, o que me motivou a usar o moni foi sua simplicidade. Ironicamente, a simplicidade foi também o motivo que me levou a parar de utilizá-lo: o moni nada mais é que um gigantesco extrato de receitas e despesas. Se você quiser analisar o seu mês de março de 2013, por exemplo, você tem que passar 15 minutos escrollando pra baixo até chegar nesse período.

Foi por essas e outras que meu relacionamento com o moni foi esfriando e passei a sair por aí nas madrugadas explorando outros apps de controle financeiro enquanto o moni chorava em casa por causa da minha infidelidade.

O olhar sedutor do porquinho rosa ali em cima roubou me seduziu, de modo que arrastei o moni para uma pasta inútil do meu iphone e o abandonei (só não deletei pois ele contém mais de um ano de registros e exportar dados nele exige conta premium).

O Meu Porquinho segue a mesma lógica do moni: você cria as categorias que quiser e vai registrando as receitas e despesas. Segue a interface dele:


O toque de mágica desse app é o seguinte: ele te entrega de bandeja um panorama geral dos seus gastos com base nas categorias que você mesmo criou.

Ao contrário do moni, não há a necessidade de você sentar numa mesa e analisar transação por transação para saber como o seu dinheiro vem sendo utilizado. 

Com apenas algumas dedadas na tela de seu celular, o Meu Porquinho cria gráficos (em forma de pizza ou de rosca) que já lhe permite de cara avaliar com o que diabos você anda gastando suas dilmas:

Nesse gráfico pode constar seus gastos com remédios, putas, drogas ou qualquer categoria que você quiser criar.

E o mais legal de tudo é que é possível criar gráficos também por períodos. Quer um gráfico retratando um ano de gastos? O meu porquinho te mostra. Quer um gráfico só do mês de março? O meu porquinho te mostra.

Enfim, eu citei o moni nesse post mais por respeito ao período em que ele me foi útil, mas o fato é que o Selo Madruga de Qualidade vai para o Meu Porquinho.

Esperto que lhe seja útil.

Abraço do Madruga!

PS: ambos os apps são gratuitos (ao menos eram na data deste post).
PS2: Eu não sei dizer se esses apps estão disponíveis para Android.
PS3: Fiquem à vontade para sugerir outros apps de finanças. 
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